O 'jeitinho carioca' para a falta de produtos

Carolina Eloy, Jornal do Brasil

RIO - Começa a contagem regressiva para o fim das compras de Natal e, a três dias do feriado, consumidores atrasados usam de diversos artifícios para garantir o presente de familiares e amigos. Para driblar a falta de estoque nas lojas, cariocas compram roupas e sapatos de tamanho errado para trocar depois e até substituem os brinquedos das crianças por material escolar. Em último caso, tem gente até desistindo de dar presentes.

Optar por um modelo parecido foi a solução que a professora Nelci Laque, 61 anos, achou para poder presentear seus familiares. Ela reclama que, mesmo com preços mais altos este ano, há falta de produtos no mercado.

Não achei alguns tamanhos de roupas e sandálias, mas procurei outra coisa na loja para garantir o presente na árvore de Natal. Depois a pessoa pode trocar ou quem sabe até gostar mais do modelo que tive que levar ponderou.

Presidente do Clube dos Diretores Lojistas do Rio de Janeiro (CDL-Rio), Aldo Gonçalves disse que o ticket médio dos presentes de Natal subiu este ano, passando de R$ 75 para R$ 100. Ele destacou que o movimento aumentou muito nestes dias próximos da comemoração e, por isso, o comércio revisou a previsão de crescimento das vendas natalinas neste ano de 10% para 15%.

As chuvas prejudicaram as vendas no início do deste mês. Isso, somado ao jeitinho brasileiro de deixar tudo para a última hora, culminou em lojas cheias citou Gonçalves.

Mesmo tendo sete filhos e três netos, a aposentada Ida Garcia, 61 anos, só vai comprar presente, este ano, para ela mesma. Ida escolheu uma televisão LCD de 32 polegadas e um notebook.

Todo ano é uma correria para achar o que cada um quer, tenho que enfrentar filas e acabo nem comprando nada para mim. Passei o ano todo querendo comprar esta TV. Com o 13º salário e sem comprar lembranças para todo mundo, vou poder me dar este presente comemora.

Outro número

A nutricionista Rosana Marques, de 38 anos, cansou de procurar o sapato do número de sua irmã e acabou comprando um tamanho abaixo para garantir o presente. Para comprar o que ela não quer ganhar, é melhor deixar que ela troque pelo número certo depois, quando houver reposição de estoque , avaliou.

O advogado Marco Antônio Alves, 36 anos, decidiu investir no futuro do filho, neste Natal. Ele contou que Gustavo, de 7 anos, pediu um boneco que, além de estar difícil de achar, subiu de preço nos últimos dias. Em vez de brinquedo, vou comprar uma parte dos livros escolares, aproveitando que ninguém está pensando nisso ainda. Deixo para comprar o boneco em janeiro, quando a corrida às lojas estiver menor , decidiu.

A previsão para o fluxo de consumidores neste fim de ano é de 12% superior ao de 2008, segundo a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), que também estima aumento de 11% nas vendas. Na lista dos presentes que mais devem ser comercializados nos malls estão os artigos de vestuário e eletroeletrônicos.

Os varejistas estão mais confiantes, e o retorno desse otimismo é uma das razões para essa expectativa de crescimento para o período do Natal disse o presidente da Abrasce, Luiz Fernando Veiga.

A fisioterapeuta Ana Carolina Machado, 27 anos, foi a três shoppings para achar o presente do tamanho e modelo que o seu amigo oculto pediu. Já comprei alguns presentes mesmo não sendo exatamente como estava procurando, mas para amigo secreto fica difícil escolher um modelo diferente , disse Ana, que prefere continuar procurando.

A aposentada Alice Maria Mesquita, 56 anos, decidiu inovar na hora de presentear os netos de 8, 9 e 11 anos e vai comprar uma mala de viagem para cada um deles.

Preferi dar um presente que será útil, já que eles vão viajar, e ainda não preciso entrar em filas enormes. Sem falar que não corro risco de não ter mais no estoque explicou Alice.

Depois de ir a duas lojas para achar uma camisa social do tamanho que o genro usa, o professor Fernando Souza, 62 anos, mudou de ideia e comprou um livro. Além de não ter o tamanho que procurava, as lojas estavam muito cheias, o que dificulta procurar outro produto. Tem sempre muito mais clientes do que funcionários.

Movimento em shoppings

O Shopping Tijuca tem previsão de receber 90 mil pessoas por dia até a véspera do Natal. Somente no dia 23, o Via Parque Shopping espera que passem cerca de 100 mil pessoas por lá.

A expectativa do Shopping Leblon é de crescimento de 25% nas vendas em dezembro, com fluxo de pessoas 25% superior ao do ano passado um extra de 5 mil pessoas.

De terça até quinta-feira, 120 mil clientes devem passar pelos corredores do Botafogo Praia Shopping, fluxo 20% superior ao registrado no mesmo período de 2008.