Diálogo é o caminho

Franklin Trein, Jornal do Brasil

RIO - A visita ao Brasil de Mahmoud Ahmadinejad provoca reações na opinião pública, muitas delas movidas por compreensíveis motivos de ordem sentimental. Contudo, seria equivocado entender a presença do presidente iraniano entre nós como um fato isolado na comunidade internacional.

O Brasil se destaca no palco das relações internacionais globais. Seu protagonismo em muitas questões supera o de alguns integrantes do grupo das nações mais industrializadas. Por outro lado, não se deve desconhecer a posição do Irã. Não podemos desconhecer que este país, formado por vários povos indo-europeus portanto, não-árabe foi berço de uma fértil vida cultural e de notável riqueza científica, mesmo depois do início de sua islamização no ano de 641. Os maiores danos à sua cultura e ao seu desenvolvimento foram impostos pelo império inglês, que ocupou seus campos de petróleo em 1909. A partir de então, o Irã não conheceu mais nem um dia sem interferência de potências ocidentais em seus assuntos internos.

Com aproximadamente 70 milhões de habitantes, o Irã, em meio às tensões do século 20, sempre destacou-se no extenso espaço geográfico e político do Oriente Próximo aos contrafortes do Himalaia. O regime teocrático instaurado pelo Ayatolá Khomeini, no fim da década de 70, não pacificou a sociedade iraniana, nem suas relações internacionais. O fundamentalismo islâmico, determinante das decisões de Estado, conduziu o Irã à luta por espaço e autonomia na sua região e internacionalmente. A negação de muitos valores, caros à sociedade judaico-cristã, a sistemática e violenta repressão aos opositores internos, a busca de poder militar muito desgastado pela guerra de 8 anos, cujo seu principal inimigo, representando interesses do Ocidente, foi o Iraque de Saddam Hussein são uma estratégia de sobrevivência frente a uma conjuntura em que se incluem as armas nucleares de Israel.

O Brasil, ao receber o presidente iraniano, não expressa consentimento à sua política interna. A tradição diplomática brasileira dispensa ter de afirmar respeito aos assuntos internos de cada país. Os contatos entre Brasil e Irã devem ser entendidos num contexto mais amplo, onde esforços de solução das tensas relações no Oriente Médio convocam a todos que possam contribuir para a construção de um convívio com segurança para as partes.

Em recente entrevista, o diretor geral da Agência Internacional de Energia Atômica, Mohamed ElBaradei, cujo mandato se encerra no dia 30, declarou: No Irã, não há outra solução do que o processo diplomático .

O diálogo parece ser o único caminho para a paz duradoura. Não me surpreenderia que o Brasil esteja atendendo à solicitação de seus parceiros mais próximos, no sentido de manter aberto um canal de comunicação com o líder iraniano.

Franklin Trein é especialista em relações internacionais.