Pesquisa: cariocas trocam cartões de crédito por empréstimos

Raphael Zarko, Jornal do Brasil

RIO - O número de pessoas inadimplentes no Rio de Janeiro caiu de 17,2% em outubro de 2008 para 14,4% no mesmo mês deste ano. Neste intervalo, subiu de 41,3% para 51% a parcela da população que tomou financiamento, segundo pesquisa da Fecomércio-RJ, realizada com 3.153 pessoas na Região Metropolitana. O levantamento aponta para um crescimento significativo dos que estão em atraso no pagamento de empréstimos em financeiras. Na faixa salarial acima de R$ 3.840, a inadimplência subiu 118% em outubro desse ano, contra alta de 17,7% no mesmo mês do ano passado.

Economista da Fecomércio-RJ, Christian Travassos explica que os que permaneceram inadimplentes estão em dificuldades para cumprir seus compromissos, recorrendo até a mais de uma financeira. No entanto, ressalta, a parcela geral de atrasos caiu, o que diminui essa mostra. Considerando todas as operações de crédito, o percentual de inadimplentes na faixa salarial acima de R$ 3.840 caiu de 9,2% em 2008 para 5,4% este ano. Abaixo dessa faixa de renda, a queda foi menor: de 21,9% para 19,7% no mesmo período.

O financiamento é um crédito que a pessoa pega para sair do buraco. Quem ficou inadimplente entre os que têm renda acima de oito salário mínimos, estão passando por problemas mesmo. Pode ser um chefe de família que perdeu o emprego, uma pessoa que pediu empréstimo antes da crise e vem se enrolando para pagar.

Para Roque Pellizaro Júnior, presidente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), os atrasos no pagamento vêm caindo em todo o ano de 2009 devido ao fato de o comércio, desde a crise, ter ficado mais austero na concessão de crédito. Outra explicação está no fato de que as financeiras mantêm juros mais baixos que os cobrados pelas operadoras de cartão de crédito. Segundo a Associação Nacional dos Executivos de Finanças e Contabilidade (Anefac), os juros anuais das financeiras são de 235,7% contra 237,9% do cartão.

O aumento do endividamento é justificável porque o varejo conseguiu manter a economia no decorrer da turbulência financeira pela venda a prazo. No Brasil, quem concede crédito não é apenas o sistema financeiro, é muito mais o varejo. Mesmo as financeiras operam com carteiras administradas pelos varejistas, que têm grande know how destaca Pellizaro Júnior.

A pesquisa da Fecomércio tam bém aponta queda no financiamento por cartões: de 48,2% em outubro de 2008 para 42,7% no mesmo mês desse ano. Acompanhando esse processo, o atraso nas prestações foi bem menor: caiu de 65,4% para 36,4% em outubro desse ano. Com as financeiras, ocorre o inverso. A inadimplência subiu de 38,4% para 40,3%, com uma diferença significativa nos atrasos: houve um salto de 13,3% para 56,5%.

A queda nos financiamentos por cartões de certa forma até surpreende, porque há uma grande disseminação do seu uso nos últimos anos no país. E vemos na pesquisa que eles são compensados pelas financeiras. Isso pode significar um receio de compras de maior valor em estabelecimento comercial nesse contexto de pós-crise. Não foi à toa que o governo fez a redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) - diz o economista da Fecomércio-RJ.

Ele mostra que, nos últimos meses, houve uma retomada nos financiamentos por cartões: desde julho, quando estava em 35,6%, vem subindo até o estágio atual de 42,7%. Tem que se levar em conta que havia uma base muito elevada em 2008.

Quanto à queda na inadimplência por cartão de crédito, Travassos considera gradativa a percepção pelo consumidor de que as dívidas nesta modalidade podem virar uma bola de neve .

Ele busca nova dívida, que se torna outra janela do orçamento.