Economia americana melhora, mas crise está longe do fim

Daniel Ottaiano, Portal Terra

SÃO PAULO - Em sua primeira entrevista coletiva como presidente dos Estados Unidos, em fevereiro, Barack Obama traçou um perfil nada animador da economia americana. Enquanto tentava a aprovação de seu plano de resgate, anunciava que essa não era "uma recessão comum". Cinco meses depois, o cenário parece ser outro e o discurso, mais otimista. "Acredito que nos afastamos do abismo. Creio que apagamos o incêndio", declarou Obama, na última semana, sobre os primeiros seis meses de sua política econômica.

Para economistas, porém, a crise ainda não acabou, e deve durar um bom tempo. Mas dados recentes dos Estados Unidos mostram que há esperanças de retomada da maior economia do mundo, o que significa alívio para todo o mundo, inclusive para o Brasil.

As vendas no varejo americano subiram 0,6% em junho, impulsionadas por aumento na comercialização de automóveis; a produção industrial retraiu-se em junho em um ritmo mais brando; as maiores empresas de cartão de crédito divulgaram taxas de inadimplência menores do que o esperado; e o número de americanos entrando com novos pedidos de auxílio-desemprego recuou.

A crise acabou? "De forma nenhuma", ressalta Paulo Rabelo de Castro, presidente do Conselho de Planejamento Estratégico da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP). "Ela muda de cara, muda de jeito, mas os custos associados ao tremendo ajustamento pelo qual as economias vão passar é uma conta ainda pendente".

Para Castro, os recentes dados da economia americana "não têm a mínima relevância ainda. Estamos passando pela crise". Mas é fato, os índices estão mais positivos. "Ao passar pela crise, há meses em que o comportamento sazonalmente é melhor", explica.

Plano de estímulo não solucionou

Ainda em fevereiro, Obama definiu o plano de estímulo de US$ 787 milhões como o "princípio do fim (da crise)". Ainda assim, assumiu que o pacote não representava a solução para "apagar o incêndio".

"O plano de estímulo foi como uma cirurgia de emergência. Algo que o poder executivo arrancou do Congresso americano diante de uma situação que parecia sem fundo. Uma vez que as autoridades começam a perceber que o fundo existe, que têm a dimensão do endividamento, o dito plano de estímulo começa a ser recalculado com outros olhos", explicou Rabelo de Castro.

O coordenador do curso de Economia Internacional da PUC de São Paulo, Antonio Carlos Alves dos Santos, concorda com Castro e vai além. "As medidas que o plano implementou eram necessárias, urgentes, e aquilo que era possível. Hoje é claro que é necessário um plano Obama 2", diz.

"Há indicadores que são extremamente positivos, mas há indicadores muito ruins. Leva a crer que alguns pacotes de estímulos ainda precisam ser feitos para retomada de confiança", completa Miguel de Oliveira, economista da Associação Brasileira dos Executivos de Finanças (Anefac).

Segundo ele, os Estados Unidos devem utilizar uma fórmula que deu certo no Brasil, a redução de impostos e pacotes específico para setores mais afetados, como indústria automobilística.

Mas Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (FED, o banco central americano), parece querer seguir outro caminho. Nessa semana, ele disse que a instituição examina cautelosamente maneiras para desmontar suas políticas maciças de estímulo monetário quando as condições permitirem.

Consumo

Santos acredita que um dos focos do incêndio é o baixo consumo dos americanos. Segundo ele, "a família americana está reduzindo o consumo, pagando dividas". Essa é a mesma opinião de Miguel de Oliveira. "O consumidor americano está muito inseguro de assumir dívidas", diz. "O que precisa é restabelecer a confiança do consumidor".

O governo americano aposta nos consumidores como a possível solução à crise. Contudo, a confiança do consumidor dos Estados Unidos piorou no fim de junho, para o menor nível desde abril, seguindo o pessimismo crescente sobre a perspectiva econômica de longo prazo.

Bernanke já declarou ao Senado que o foco agora é proteger o consumidor. Mas ao mesmo tempo, o índice de preços à população americana teve o maior avanço desde julho de 2008, ao subir 0,7% em junho.

Bancos lucram

Outros resultados que mostraram um tom positivo da economia americana foram os lucros dos bancos - os vilões da crise.

Menor ou maior que em períodos anteriores, o fato é que Wells Fargo, Citigroup, Bank of America, JPMorgan e Goldman Sachs tiveram um segundo trimestre positivo, de ganhos.

Segundo o New York Times, "nova ordem está emergindo em Wall Street depois da pior crise financeira desde a Grande Depressão". JPMorgan e Goldman Sachs agora ocupam posições dominantes, depois da assistência vinda dos contribuintes e de empréstimos governamentais de baixo custo.

Um sinal de que as condições melhoraram foi a determinação do FED, que informou que reduzirá para US$ 200 bilhões a quantia oferecida em agosto por meio do Term Auction Facility (TAF), frente a US$ 250 bilhões em maio, devido a uma melhora nas condições do mercado.

O programa TAF foi introduzido em dezembro de 2007 para ajudar a aliviar uma crise de financiamento no mercado interbancário, e tornou mais fácil para os bancos emprestarem do FED anonimamente e durante longos períodos.

Apesar dos dados recentes, a confirmação de um cenário menos ruim acontecerá com a divulgação do Produto Interno Bruto (PIB, soma de todas as riquezas dos EUA). Ainda assim, o Federal Reserve (FED) espera uma retração de até 2% da economia americana em 2009. Mas para isso o país teria que se recuperar, já que no primeiro trimestre a retração foi de 5,5%.