Inadimplência cai junto com juros

Natalia Pacheco, JB Online

RIO - Dados divulgados ontem pela Fundação Procon-SP e Serasa Experian dão o sinal de que o movimento de queda da taxa média de juros deve levar à redução da inadimplência.

Segundo a fundação, o índice para empréstimo pessoal caiu em julho deste ano ao menor nível desde dezembro de 2007, enquanto a taxa média cobrada caiu para 5,3% neste mês, frente 5,52% em junho. Na mesma direção de otimismo, a pesquisa da Seraxa Experian mostra que a inadimplência perdeu força do primeiro para o segundo trimestre. Entre janeiro e março, houve elevação de 11,4% na comparação. Mas no segundo trimestre, houve um crescimento menor, de 9,4%, igual ao mesmo período de 2008. No semestre, porém, a inadimplência aumentou 10,4%.

Para o professor de Finanças do Ibmec, Gilberto Braga, a redução da taxa de juros é fundamental para a diminuição do endividamento do brasileiro.

Muitos estão atolados em dívidas. Com a redução de tributos pagos, a pessoa consegue reagir a esse endividamento disse.

Além disso, a inadimplência de junho está atrelada aos juros de março, quando as taxas estavam mais altas.

O diretor de Finanças da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Andrew Frank Storfer, explica que para o cliente ser considerado inadimplente, a fatura deve ter atraso de 90 dias.

Como as taxas de juros estão em queda nos últimos meses em função da redução de 4,5 pontos percentuais da Selic de 13,75% para 9,25% de janeiro a junho deste ano, a inadimplência deve cair no terceiro trimestre.

O resultado acumulado da inadimplência de julho, agosto e setembro será menor do que o trimestre anterior porque terão com base os juros de junho, que caíram por causa da Selic. E como ainda há tendência de queda da taxa, as pessoas vão conseguir pagar suas contas destacou Storfer.

Queda lenta

Apesar do otimismo, os economistas lembram que essa queda será lenta, porque os juros ainda estão caros no Brasil. O economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas, ressalta que os juros não estão caindo na mesma proporção da Selic.

Os bancos não repassam a queda da taxa básica. A Selic já caiu 4,5 pontos percentuais este ano e nenhum banco reduziu juros nessa proporção. Por isso, a inadimplência vai diminuir lentamente explicou.

Além disso, a demora na quitação de dívidas está relacionada ao desemprego e aperto na renda. Com maior oferta de trabalho e aumento dos salários, o volume de endividamento também vai diminuir. Segundo o professor de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Antonio Corrêa de Lacerda, só a queda dos juros não adianta.

Ajuda, mas não é o suficiente. Inadimplência está diretamente ligada ao desemprego e à redução da renda. Com o aquecimento da economia no país, os empregos são retomados e reajustes salariais concebidos salientou o professor.

Momento de renegociação

A reboque da queda das taxas de juros, mesmo que modestas diante da redução da Selic, o momento é ideal para a renegociação de dívidas, alerta a professora de Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), Myrian Lund.

A professora explica que juros menores são uma indicação de que os bancos estão sensíveis ao atual cenário econômico do país e se abriram ao diálogo.

Esse é o momento ideal para renegociar financiamentos e empréstimos. Ao invés do calote, os bancos preferem reduzir os juros garante Myrian. Aos poucos, as pessoas acertam suas dívidas e a inadimplência cai.

Na análise da inadimplência por segmento da Serasa Experian, bancos e cartões de crédito continuam a liderar o ranking de contas a receber. No primeiro semestre deste ano, as dívidas com bancos representaram 43,9%. Em seguida, aparecem as dívidas de cartões de crédito e financeiras, com 36,8%. Os cheques sem fundos aparecem na terceira colocação da lista, com 17,5% de participação de janeiro a junho de 2009, abaixo dos 22,5% verificados no primeiro semestre do ano anterior. Fecham o ranking os títulos protestados, que nos seis primeiros meses de 2009 tiveram uma representatividade de 1,9%.

De acordo com a pesquisa do Procon, a taxa média do cheque especial também caiu em julho. Os juros foram de 8,87% ao mês em junho para 8,83% mesmo patamar de julho de 2008. Foi a sétima queda consecutiva dos juros de empréstimo pessoal e do cheque especial do levantamento. A análise foi efetuada no dia 6 de julho junto a 10 bancos: Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal, HSBC, Itaú, Nossa Caixa, Real, Safra, Santander e Unibanco.