G-8: pressão do Brasil influi na pauta

Natalia Pacheco, Jornal do Brasil

RIO - A maior aproximação entre Brasil, França e Estados Unidos após a eleição de Obama rendeu frutos para o encontro do G-8 (grupo dos países mais ricos do mundo mais a Rússia), que começa quarta-feira em Áquila, na Itália. Especialistas afirmam que a pressão brasileira contra medidas protecionistas, a ajuda aos países mais pobres e a adoção global de uma moeda alternativa ao dólar assunto discutido constantemente pelos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) definiram a agenda do encontro do grupo. Além disso, os resultados das medidas adotadas pelo governo brasileiro para combater a tormenta econômica chamaram a atenção dos países do G-8.

A especialista em Comércio Exterior da Fundação Getulio Vargas (FGV) Lia Valls diz que a prova da maior voz do Brasil sobre o G-8 são as consultas feitas pelos líderes do grupo ao presidente Lula antes dos encontros.

Antes, o Brasil era apenas observador. Hoje, ele é consultor do G-8. Antes da crise, o diálogo já aumentava progressivamente, mas a tormenta exigiu maior presença do país ressalta Lia.

Mas a postura do Brasil também mudou, garante o coordenador de Relações Internacionais da Ibmec RJ/BH, José Luiz Niemeyer. O especialista diz que a posição mais alinhada a dos países centrais em alguns pontos em relação ao comércio na última reunião do G-20, em abril, aumentou a aproximação entre Brasil, Estados Unidos e Europa.

O Brasil, como um dos membros do Bric, batia em questões que tornavam essa aproximação mais distante. Mas na última reunião do G-20, a posição brasileira em alguns pontos foi divergente de China e Índia. Isso foi fundamental para a maior pressão do Brasil sobre o G-8 explica Niemeyer.

Sucesso na crise

Os olhos dos países-membro do G-8 também se voltaram mais ao Brasil por causa do sucesso dos efeitos das medidas de combate à crise, segundo a economista Silvia Pinheiro, da consultoria internacional Guedes & Pinheiro.

Apesar de ser um grande exportador de commodities, a tormenta está mais amena no Brasil. Os planos fiscais, cortes de impostos e redução das taxas de juros surtem efeito maior aqui do que nos outros países diz Silvia, que destaca o interesse do G-8 em saber o porquê do maior sucesso da política anticíclica no Brasil.

Além de todas essas explicações, o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, acredita que o ponto fundamental para esta aproximação é a sinalização de maior abertura comercial do país. O economista acredita que o governo brasileiro vai abrir mais o mercado, principalmente o setor de serviços, para poder se juntar aos líderes da economia mundial.

O Brasil já entendeu que, para fazer parte desse grupo, a posição em relação ao comércio deve ser mais convergente com a desses países. Tanto que o governo já estuda alguma medidas para abrir mais o comércio diz o vice-presidente da AEB.

Meio ambiente

A pressão do Brasil sobre o encontro de quarta-feira não para por aí. A pauta do desenvolvimento sustentável também será discutida pelo G-8 em função da posição atual do país no cenário global. O professor de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Alexandre Espírito Santo, diz que o governo brasileiro levou essa preocupação mundial aos líderes do grupo.

Hoje, o mundo se pergunta como será possível se desenvolver para combater a crise, mas sem degradar o meio ambiente. O Brasil, como um país em ascensão no cenário global, fez valer a sua voz. E isso é bom para esses países porque vão tentar resgatar o grupo, que perdeu credibilidade nos últimos anos explicou.

Emergentes

A França vem apoiando a reforma do Conselho de Segurança da ONU e do Fundo Monetário Internacional para que os países emergentes tenham maior peso nessas instituições. O encontro que começa quarta-feira provavelmente será mais um passo a favor da luta pela maior participação mundial desses países.

Lula e o presidente da França, Nicolas Sarkozy, disseram terça-feira em Paris que defenderão uma posição comum na reunião do G-8 para tentar convencer os países ricos da necessidade de realizar mudanças na governança global. O objetivo defendido pelos dois líderes é o de dar maior representatividade às grandes economias emergentes nas instituições internacionais.

Temos que aproveitar esse momento de crise para fazermos as mudanças de que tanto precisamos afirmou Sarkozy.