Pedro Moreira Leite: casas sustentáveis no rumo do PAC

Jornal do Brasil

DA REDAÇÃO - Presidente para a América mLatina do banco de investimentos Hichens, Harrison & Co. e à frente da Ultra Green Brasil subsidiária da multinacional britânica famosa por construir moradias pré-fabricadas e sob forte conceito ambiental o economista Pedro Moreira Leite é um otimista em relação à maneira como o governo brasileiro vem enfrentando as consequências da crise financeira mundial.

Ex-assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Moreira Leite diz que oferecer imóveis populares a preços acessíveis é um dos desafios não somente da empresa que ele comanda no país, mas do próprio governo, que dessa forma colabora para a geração de empregos num momento crítico da economia mundial.

Como o senhor analisa, resumidamente, a atual cena econômica mundial?

A economia global está muito diferente do que havíamos visto há menos de dois anos, quando parecia que os tempos de lucro não chegariam ao fim, assim como o acesso ao crédito facilitado, que permitia comprar de tudo com muita tranquilidade. Hoje, tradicionais potências do Primeiro Mundo, como Estados Unidos, Grã-Bretanha e Alemanha, estão derretendo financeiramente, suas economias encolhendo, e até mesmo a Rússia, que em 2007 caminhava a passos largos, teve o seu milagre econômico transformado em poeira devido à certeza do colapso nos preços do petróleo.

A que o senhor atribui a situação relativamente positiva do Brasil nesse contexto?

Nos últimos anos tem havido uma transformação notável no Brasil, resultante da migração ascendente de milhões de pessoas para a classe média. Isso cria uma expansão nos gastos dos consumidores e, talvez pela primeira vez na história do país, há um mercado interno suficientemente robusto para sustentar a economia quando mercados tradicionais de exportação sofrem com a desaceleração. A ascendência de mais de 20 milhões de pessoas (11% da população) da classe D para a classe C transformou essas pessoas em potenciais consumidores. E as boas notícias não param por aí: a expectativa é de que outros 10 milhões façam a mesma transição nos próximos três a cinco anos.

Quais as desvantagens que o país enfrenta devido a essa transformação?

Uma de nossas prioridades tem de ser a moradia. É um trabalho árduo suprir a demanda por novas residências no Brasil e entregá-las em tempo hábil, satisfazendo as expectativas dessa nova classe econômica.

O que pode ser feito para suprir uma demanda tão forte?

Eu comando no Brasil, desde o ano passado, a Ultra Green, empresa especializada em tecnologias de sustentabilidade. Entre nossos produtos temos um sistema de construção de imóveis inédito no país, com mais de 30 anos de existência, ao longo dos quais já foram concluídas três milhões de construções no mundo. O sistema, conhecido como Insulated Concrete Formwork (ICF), proporciona a construção de imóveis ambientalmente sustentáveis, cinco vezes mais rápido que o método convencional e a um custo 20% menor. Casas construídas através desse sistema têm isolamento térmico e acústico, são resistentes (certificadas contra terremotos de até nove pontos na Escala Richter em prédios de até 22 metros de altura) e à prova de fogo, além de proporcionar a redução dos custos com energia para seus residentes em até 70%. Estamos introduzindo essa tecnologia no Brasil. A idéia é começar com 20% das vendas para o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e 80% para clientes particulares. A construção verde produz apenas 2% de resíduos e gera créditos de carbono. Com o gerenciamento renovável, o esgoto se transforma em energia. A água também é recuperável, não para o consumo humano, mas para irrigação de jardins e outros fins

Quais os investimentos previstos da Ultra Green no Brasil?

Com a expansão do mercado imobiliário de baixo e médio rendimentos em mente, além dos programas governamentais como o PAC e o Minha Casa, Minha Vida, a Ultra Green, em parceria nas operações brasileiras com o banco de investimentos Hichens, Harrison & Co, criou um misto de investimentos nacionais e estrangeiros para implantar nossas primeiras fábricas no Brasil. O plano é simples: investir US$ 430 milhões no país até 2019. O aporte inicial será de US$ 100 milhões, até o fim do ano que vem.

Há algum plano de expansão a longo prazo?

Sim. A curto prazo, foi planejada a construção de sete fábricas foram para que sejam produzidos de 14 milhões de metros quadrados de paredes por ano, gerando cerca de 600 empregos diretos e indiretos por fábrica. Mas acredita-se, e é nosso objetivo, que daqui a uma década existam fábricas da Ultra Green em todos os estados brasileiros, fornecendo material, planejamento e gerenciamento de projetos para a construção de milhões de novas residências.

Como presidente para a América Latina do banco de investimentos Hichens, Harrison & Co., o senhor faz parte do grupo de otimistas que acha que o Brasil está superando a crise com louvor?

Sim. Acredito na posição tomada pelo governo Lula em relação à crise e ao trabalho feito pela equipe econômica nos últimos sete anos. A herança deixada pelo governo Fernando Henrique Cardoso foi seguida e aperfeiçoada. Acho que o país sairá muito bem da crise e se solidificará como o líder da América Latina. Mas, certamente, ainda temos um longo caminho a percorrer.

O grupo tem planos de expansão para o Brasil?

Ele vem se expandindo no mundo todo depois da venda ao grupo indiano Religare, e estamos negociando a aquisição do grupo americano AIG. Esse fato estimulou nosso plano de crescimento no Brasil através de aquisições para o segundo semestre do ano, mas nossa base de clientes vem crescendo muito no país e nossa área de captação se solidificou. Nossa intenção, agora, é voltar às raízes da trading. E já estamos com a divisão de commodities novamente em funcionamento.