Mulheres invadem a Bovespa

Natalia Pacheco, Jornal do Brasil

RIO - Engana-se quem acha que o mercado financeiro, principalmente a Bolsa de Valores de São Paulo, é um segmento masculino. Apesar dos homens ainda dominarem a participação na Bovespa, cerca de 74% do quadro atual, a presença das mulheres cresceu 710% nos últimos sete anos, passando de 15.030 para 121.769.

A expansão feminina é bem maior do que a total, que aumentou 508% de 2002 para abril deste ano. Em relação ao crescimento masculino, a vantagem das mulheres é ainda mais expressiva, já que a expansão de homens na bolsa foi de 465% nesse período.

A consultora de investimentos e criadora do clube Mulherinvest, Sandra Blanco, explica que o aumento feminino não só na Bovespa, mas em outras fontes de renda, veio da vontade de reduzir a diferença salarial com os homens.

Elas ganham menos e trabalham mais porque ainda têm as tarefas domésticas. E as mulheres perceberam que essa diferença de renda poderia ser equilibrada por meio de fundos de investimentos. Descobriram que podem ir além da poupança disse Sandra.

Mas a principal diferença entre homens e mulheres é quanto ao tempo. Segundo a consultora, o foco feminino é de investimentos com retorno a longo prazo, enquanto o masculino é mais factual, nas retiradas do dia a dia.

As mulheres se preocupam com o futuro e bem-estar dos filhos destacou a consultora.

A fundadora do fundo de investimentos Meninas Iradas, Mara Luquet, conta que além de pensarem no longo prazo, as mulheres se voltam mais para empresas com caráter sustentável.

Na verdade, elas sempre foram as gestoras da renda da família, mas agora estão preocupadas com as finanças futuras. Na hora de investir, as mulheres são mais seletivas. Escolhem empresas com ideias sustentáveis. Tem muitas que não investem em fundos com companhias de cigarros contou.

Colaboração dos clubes

A maioria, como não tem muito conhecimento sobre o assunto, procura clubes de investimentos para entender o mercado. Mara credita o aumento feminino não só na Bovespa, como em outros investimentos, aos clubes e fundos de investimentos.

As mulheres buscam ajuda. Não se lançam de cara. Primeiro, buscam entender o mercado para depois investir. E o ponto de partida, na maioria das vezes, são os clubes ou fundos de investimentos ressaltou a fundadora do 'Meninas Iradas', que atualmente conta com mil membros, sendo 70% composto por mulheres.

E foi assim com Liane Reis. A empresa em que trabalha promoveu uma visita ao curso Mulheres em Ação , realizado pela Bovespa.

Eu não entendia nada sobre o assunto. Quando fui ao curso, passei a me interessar. Comecei a ler livros e reportagens, assistir programas e entrei em um clube. Hoje, eu explico que tenho ações aos meus filhos. É uma oportunidade que não tive. Gostaria de ter acesso à essas informações muito antes revela.

Perfil

No total, há 519.057 investidores na Bolsa brasileira, sendo 397.288 homens e 121.769 mulheres. A faixa etária que concentra o maior número de investidores é a que vai de 26 a 35 anos. Cerca de 150 mil investidores da Bovespa estão concentrados nessa porção. Desse número, 30.841 são mulheres.

Mas em relação à aplicação, a faixa etária acima de 66 anos é a que mais realiza investimentos, R$ 26,51 bilhões dos R$ 72,06 bilhões totalizados em abril deste ano. Desse total, R$ 15,38 bilhões vieram do lado feminino da Bolsa, sendo R$ 6,62 bilhões das mulheres acima de de 66 anos. Em seguida, vem a faixa etária de 56 a 65 anos, como as mulheres que mais investiram no mês passado, R$ 3,32 bilhões.