Jeffrey Miron: O capital vai encontrar um caminho

Gabriel Costa, Jornal do Brasil

RIO - Jeffrey Miron é um liberal extremado. Professor do Departamento de Economia da Universidade de Harvard e PhD pelo Massachussetts Institute of Technology (MIT), diz que a maioria dos problemas econômicos e sociais são melhor resolvidos se forem eliminadas as intervenções governamentais que causaram ou exacerbaram essas questões em primeiro lugar. Fazendo jus à posição, Miron foi um de 166 economistas que assinaram uma carta aos líderes do Congresso dos Estados Unidos em oposição ao plano de resgate aos bancos do governo federal americano, no fim do ano passado. O economista acredita que o governo deveria ter deixado as instituições quebrarem, já que estavam à beira da falência por terem assumido riscos excessivos. Miron faz questão de ressaltar, no entanto, que é um liberal consequencial , e não filosófico. Isso significa, explica, que seus argumentos baseiam-se em avaliações de custo e benefício, e não em afirmações de direitos e princípios. Em entrevista exclusiva ao Jornal do Brasil, o professor falou sobre questões cruciais relativas à atual crise econômica.

Os pacotes de estímulo e resgates a instituições anunciados nos EUA e em outros países foram uma resposta adequada à crise?

Os resgates e estímulos são ambos abordagens ruins à crise. Os resgates foram uma ideia terrível. A bagunça atual nunca teria ocorrido se não fosse por políticas federais mal concebidas. O governo federal garantiu Fannie Mae em 1938 e Freedie Mac em 1970, e essas duas instituições hipotecárias estiveram no centro da crise. O governo implicitamente prometeu a essas instituições que cuidaria de suas dívidas, então elas assumiram enormes quantidades de risco. Pior ainda, a partir de 1977 e mais ainda nos anos 90 e no início do século, o Congresso pressionou instituições hipotecárias a expandir os empréstimos subprime. A indústria ficou feliz em obedecer, dada a promessa implícita de apoio federal, e o subprime decolou. Foi mais que um relaxamento nos conceitos-guia do crédito. Foi um completo abandono de práticas razoáveis de empréstimo, no qual os tomadores com históricos pouco confiáveis conseguiram hipotecas com as quais estavam mal equipados para lidar. O fato de que o governo tem tamanha responsabilidade pela situação significa que qualquer resposta deveria eliminar as condições que criaram essa bagunça em primeiro lugar, e não tentar consertar má governança com mais governança. A alternativa óbvia seria deixar que as instituições com problemas declarassem falência. Isso não significa que elas desapareceriam, apenas teriam novos donos, como aconteceu com várias empresas aéreas. A falência pune aqueles que assumiram risco demais, enquanto preserva os aspectos do negócio que permanecem rentáveis.

Na sua opinião, a pior parte da crise financeira e econômica ficou para trás?

O meu palpite, mas é apenas um palpite, é de que o pior passou. Muitos indicadores sugerem que o ritmo de declínio diminuiu, então é possível que começamos a ver recuperação dentro de seis meses. No entanto, algumas questões permanecem complicadas. As folhas de balanço dos bancos, por exemplo, ainda têm montes de ativos tóxicos.

O que a crise significa para as instituições financeiras? A reestruturação pós-crise pode representar, por exemplo, o fim dos bancos de investimento?

Não, eu não acho que a crise signifique nada tão dramático como o fim dos bancos de investimento. Não traço grandes paralelos entre a situação atual e a Grande Depressão de 1929, quando mais da metade dos bancos desapareceu. Acredito que eles estarão de volta relativamente rápido. As instituições só terão que negociar novas camadas de regulação, das quais muitos aspectos estão sendo discutidos.

Que tipos de regulação podemos esperar no futuro?

Um dos tipos colocaria maiores restrições nas espécies de ativos que os bancos poderiam manter. Outros revisariam os padrões de adequação do capital. Outras possibilidades são fundir ou renovar as diferentes agências regulatórias, possivelmente substituindo-as com um super regulador ou czar do risco, se preferir. Meu palpite: teremos variações de todos esses, mas nenhum vai ajudar e talvez ainda piore as coisas.

O senhor considera viável a regulação do fluxo de capital de e para os chamados paraísos fiscais?

Não. Na prática, o capital vai encontrar um caminho para fluir para onde quer que o retorno seja mais alto.

Qual é o panorama para os países em desenvolvimento?

Os países em desenvolvimento têm a oportunidade de ganhar uma parcela maior da atividade financeira ao evitarem a regulação cara que alguns países desenvolvidos provavelmente terão que impor.

A turbulência pode ajudar de alguma forma na direção de uma melhor e mais equânime distribuição da riqueza global?

Eu duvido que a turbulência seja boa para uma distribuição de riqueza mais igualitária. Na maioria das situações, países e pessoas com rendas mais baixas parecem sofrer mais em situações de declínio econômico. Acredito que a evidência sugira que o crescimento é bom para todo mundo, especialmente países em desenvolvimento com políticas que permitam que obtenham ganhos com o crescimento. Esse países deveriam, por exemplo, manter-se abertos ao investimento estrangeiro direto.