Real forte possibilita projeção de inflação ainda menor

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RIO DE JANEIRO - A apreciação mais acentuada do real deve provocar uma redução nas estimativas de inflação em 2009 pelos agentes que estavam menos otimistas sobre a retomada do apetite externo por Brasil. Para analistas, o câmbio também pode levar o governo a considerar preços mais contidos na economia brasileira.

Nesta quarta-feira, o dólar foi abaixo de R$ 2,00 pela primeira vez desde o início de outubro. Segundo operadores, o movimento deve-se à maior entrada de recursos atraídos pelas boas condições do País num cenário em que várias economias estão mais abatidas pela crise global.

- Isso ajuda a amenizar o cenário de inflação - lembrou Jankiel Santos, economista-chefe do Bes Investimentos, logo após o dólar atingiu a mínima da sessão a R$ 1,999.

- No próprio exercício feito pelo BC (Banco Central), o cenário contemplava dólar acima de R$ 2,20. Quando o BC for rodar o modelo de novo, vai ter uma taxa de câmbio bem mais baixa. Esse dólar deve ter impacto baixista nas projeções do governo - disse.

No Relatório de Inflação do primeiro trimestre, o BC previa Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2009 de 4,0%, com Selic a 11,25% ao ano e dólar a R$ 2,35.

Na ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de abril, o BC atualizou esse cenário para Selic a 11,25% e o dólar a R$ 2,20. Mas na ata o BC não divulga a projeção de inflação, dizendo apenas que estava bem abaixo do centro da meta de 4,5%.

Desde então, a Selic já foi cortada para 10,25% ao ano - o que já leva em conta um cenário inflacionário mais benigno.

Revisões para baixo nas previsões de inflação devem ser vistas com mais rapidez no relatório Focus. O prognóstico mais recente para o IPCA deste ano é de alta de 4,33%.

- Com o dólar mais fraco, você tem uma menor pressão sobre os bens comercializáveis. Em um quadro em que a economia está se desacelerando, esse fato pode levar a revisões - afirmou Newton Rosa, economista-chefe do SulAmérica Investimentos.

Meta de 2011

Rosa projeta que o dólar encerre o ano em R$ 2,04. Mas as previsões para o câmbio ainda diferem um pouco. Zeina Latif, economista-chefe do ING, é um pouco menos otimista.

- Ainda tem espaço no curto prazo para (o dólar) cair. No médio prazo sou mais cética, porque sabemos que sempre tem exageros nos movimentos dos mercados e depois eles são corrigidos - disse ela.

No ano, até agora, a moeda americana caiu quase 14% frente ao real. Desde o pico de R$ 2,6 alcançado em dezembro com o agravamento da crise global, a queda já é de mais de 20%.

É com esse pano de fundo que o governo define, no mês que vem, a meta de inflação a ser perseguida pelo país em 2011 - primeiro ano do próximo governo.