Agronegócio: desigualdades contra oportunidade

Gabriel Costa, Jornal do Brasil

RIO - Em uma época em que o chavão da crise como oportunidade traz a ambição de que o Brasil se torne uma grande potência exportadora, uma das bases da economia do país, o setor agropecuário que responde por cerca de 35% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro ainda é marcado por desigualdades e precariedade nas condições de trabalho para os menos favorecidos.

Das cerca de 30 milhões de pessoas que vivem no campo, 4,1 milhões simplesmente trabalham sem remuneração. Já entre os 13 milhões de trabalhadores agrícolas remunerados, 40% tinham rendimento abaixo do salário mínimo em 2006, segundo dados do livro Emprego e trabalho na agricultura brasileira, organizado pelos professores Antônio Márcio Buainain e Claudio Dedecca, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com base em um seminário sobre o trabalho e emprego na agricultura brasileira, com a contribuição de vários especialistas, acadêmicos e líderes de sindicatos.

O Brasil tem, sim, muito potencial. Essas precariedades de infraestrutura e logística são parte de contradições que precisam ser eliminadas para alcançar esse potencial diz Buainain.

No trabalho, publicado pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), os professores buscaram resgatar o tema específico do emprego e ocupação na agropecuária, que, segundo Buainain, ficou em segundo plano, desde a década de 1990, em relação a questões como a reforma agrária, agricultura familiar e ocupações rurais não-agrícolas, em parte devido à redução do emprego agrícola decorrente de fatores como a mecanização e modernização da produção do agronegócio, que inclui o conjunto de atividades dos três setores de produção primária, transformação industrial e serviços.

O professor da Unicamp ressalta, no entanto, que a ideia de que o Brasil agora é um país essencialmente urbano, com uma economia baseada em indústria e serviços, não corresponde totalmente à realidade. A partir das informações que serviram de base para o livro incluindo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) e do Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) , os organizadores chegaram à conclusão de que, enquanto na última década a população ocupada na agricultura parecia estar em queda livre, na verdade os números mantiveram-se praticamente estáveis entre 1996 e 2006, no patamar de 16 milhões de pessoas, embora tenha sido registrada uma forte evolução na produtividade do trabalho.

Adequação e capacitação

Outro ponto que contribui para o descrédito da tese do Brasil urbanizado e moderno é a constatação de que, ainda que a ocupação agrícola tenha caído de 70% para em torno de 15% em pouco mais de 50 anos um ritmo extremamente rápido , o país ainda está longe do modelo clássico de nações capitalistas desenvolvidas, onde a participação da agricultura na ocupação é baixa e dificilmente supera 5%.

Ainda assim, destaca o professor, também é preciso tomar cuidado com a antiga ideia de que existem dois ou mais países no Brasil. Na verdade, acredita o professor, os números só comprovam a profunda heterogeneidade de um só país, onde relações arcaicas superadas há décadas nos países desenvolvidos convivem com relações próprias da sociedade atual.

Segundo o trabalho, em 2006, apenas 9% dos trabalhadores agrícolas tinham carteira assinada, e só 22,7% eram alcançados pela previdência social. Buainain avalia que esses números, aliados à falta de capacitação adequada para os trabalhadores, refletem um gargalo da própria economia brasileira, e não apenas das áreas rurais.

Hoje, um equipamento agrícola pode custar dezenas de milhares de reais. Uma colheitadeira de algodão custa R$ 500 mil. É preciso capacitar os trabalhadores para pilotar esses equipamentos diz.

Os números da desigualdade sugerem que o alardeado potencial produtor e exportador do Brasil poderia já estar sendo melhor aproveitado se investimentos tivessem sido feitos para amenizar esses problemas no Brasil. Buainain afirma, no entanto, que o mais importante agora é cuidar do futuro, até porque as questões ambientais e sociais também influem e muito na conjuntura econômica.

Desmatar a Amazônia, por exemplo, é garantir que ninguém vai comprar de nós conclui.