Crédito: sopro de alívio para o consumidor

Gabriel Costa , Jornal do Brasil

RIO - A situação econômica já começa a melhorar para o consumidor brasileiro. Dados divulgados terça-feira registraram queda nos juros do crédito à pessoa física e redução no número de cheques sem fundo no país. As informações, presentes em duas pesquisas de instituições diferentes, guardam uma relação, uma vez que os juros menores contribuem diretamente para que haja menos casos de pessoas impossibilitadas de honrar dívidas.

Com a exceção do cartão de crédito na pessoa física, todas as taxas de juros das operações de crédito caíram em abril, na terceira redução consecutiva, segundo a Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac). O número de cheques sem fundos também caiu em abril, o que, segundo a empresa de crédito do varejo Telecheque, responsável pela pesquisa, sinaliza uma melhora no controle de gastos das famílias brasileiras. Em abril, 97,16% dos cheques emitidos foram honrados, em alta de 1,06% na comparação com março, e de 1,41% em relação a abril do ano passado.

Com certeza esses dados têm uma relação direta. Quanto menores os juros, mais as pessoas têm condições de rolar suas dívidas, o que acarreta menor incidência de cheques sem fundo diz o economista Francisco Barone, professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Passado o período de contas pesadas característico do início ano, e com o aparente arrefecimento da crise financeira internacional, as pessoas já conseguem honrar melhor seus compromissos financeiros, dizem especialistas. O conjunto de informações indica um cenário de menor incerteza tanto para instituições como para o consumidor, avalia o vice-presidente da Anefac, Miguel Ribeiro de Oliveira.

Já se começa a perceber, depois de um período econômico muito difícil, que os próprios bancos, que há alguns meses hesitavam até em abrir novas contas, estão indo à luta afirma Oliveira.

A diretora de recuperação de crédito da Telecheque, Dirlene Martins, também afirma que os menores juros à pessoa física estão diretamente relacionados ao menor número de cheques sem fundos.

Com juros altos, um empréstimo ou o cheque especial pode virar uma bola de neve, o que leva a pessoa a ficar inadimplente no financiamento, no cartão de crédito e, consequentemente, no cheque. Dificilmente alguém cai na inadimplência em um só item. Os altos juros, especialmente para refinanciamento, matam o consumidor muito rápido ressalta Dirlene.

No cheque especial, a taxa de juros caiu de 7,75% para 7,66% ao mês, a menor desde dezembro de 2007. Já para o Crédito Direto ao Consumidor (CDC), a taxa recuou de 2,92% para 2,88%, a menor da série histórica, segundo a Anefac.

Segundo semestre melhor

Com um cenário de menor incerteza, o consumidor também recupera a confiança e efetivamente compra mais. Segundo a representante da Telecheque, a empresa já detectou um aumento nas vendas desde abril entre seus parceiros. Dirlene destaca, no entanto, que os juros não são o único elemento a ser levado em conta nessa equação.

Na verdade, percebemos dois fatores além dos juros. Um deles é o fato de que, a partir de abril, as contas de início de ano, como IPTU e matrícula dos filhos, já estão encerradas. O outro é a visão da crise pelo prisma da oportunidade, ao verificarmos que o crédito passou a ser concedido e utilizado de forma mais consciente desde o início da turbulência explica a especialista.

Já para o vice-presidente da Anefac, a redução nos juros reflete não apenas a queda da taxa básica de juros (Selic), que foi reduzida novamente em abril, e a expectativa do mercado financeiro de que o Banco Central dê prosseguimento aos cortes, mas também a própria expectativa de um segundo semestre menos penoso para a economia nacional.