Varejo: os limites da oportunidade do IPI

Gabriel Costa, Luisa Girão, Jornal do Brasil

RIO - A redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) já afetou os padrões de consumo e vendas de automóveis, eletrodomésticos e materiais de construção, mas isso pode significar um golpe futuro na economia nacional. Especialistas advertem que as pessoas devem tomar cuidado com a euforia do consumo, que pode gerar problemas de endividamento e inadimplência mais à frente. Além disso, o fim do prazo dessas medidas pode acarretar uma queda acentuada do consumo.

Redes varejistas estimaram crescimento de cerca de 25% nas vendas de eletrodomésticos da linha branca até domingo, no Dia das Mães. Se o setor automobilístico não manteve o bom desempenho dos meses anteriores no mês passado, ainda registra vendas 0,14% superiores ao período entre janeiro e abril do ano passado.

Não estamos falando de comprar uma calça de R$ 50. São itens de valor mais elevado. Uma redução de 5% ou 10% faz diferença diz Gilberto Braga, professor do Ibmec-RJ e especialista em finanças. Temos o risco não só de um desequilíbrio momentâneo, mas de um comprometimento no longo prazo por contração de dívidas.

O economista explica que o perigo é maior no longo prazo, em um cenário de crise, pela possibilidade de surgirem fatores inesperados que dificultarem os pagamentos. Segundo Braga, mesmo setores que não sofrem impacto direto da turbulência realinham despesas no período, o que pode levar, por exemplo, a demissões por questões estruturais que prejudiquem a capacidade de pagamento dos compradores, o que aumenta o risco de inadimplência.

Já Júlio Gomes de Almeida, professor da Unicamp e ex-diretor de política econômica do Ministério da Fazenda, não teme que as pessoas consumam mais do que podem com a redução do imposto.

Em uma época normal, certamente teríamos esse problema, mas o mercado caiu tanto que a redução do IPI só contrabalançou parte disso avalia.

Almeida alerta, entretanto, para o risco de queda acentuada no consumo quando terminar o período de vigência da medida, que vai até o fim de junho no caso dos automóveis, e julho, para a linha branca. Segundo o especialista, o fim do prazo pode criar um problema ainda maior do que o que foi amenizado.

Os consumidores não parecem compartilhar das preocupações dos economistas. Flávio Albuquerque, de 28 anos, conta que a redução de IPI mudou seus planos. Antes, pensava em comprar um carro usado, mas agora já pensa em um zero.

Vou optar pelo melhor custo-benefício. Neste caso, o carro zero se destaca, já que não farei troca de usado por novo afirma.

Além do preço, Flávio procura a melhor forma de pagamento, porque acredita que o momento é propicio para que as lojas realizem promoções para atrair o consumidor.

O momento é bom para negociar. A compra seria à vista se tivesse mais possibilidades de desconto e acessórios. A prazo, se os juros estivessem baixos e as parcelas com um valor mais acessível diz.

Jaqueline Monteiro, 34 anos, já tinha o sonho de comprar um carro zero, e aproveitou o momento:

Estava guardando dinheiro há um tempo. Quando fiquei sabendo da redução do IPI, achei que este era o momento certo. Fiz um empréstimo com um terço do valor, mas valeu a pena porque o preço do carro que queria reduziu bastante.

No varejo, a chegada do Dia da Mães, segunda melhor data para o comércio, atrás apenas do Natal, aliou-se à redução do imposto para aumentar as vendas. A rede Carrefour registrou aumento de 40% no fluxo de clientes, enquanto a rede Extra, do Grupo Pão de Açúcar, estimou em 20% o aumento nas vendas da linha branca na data comemorativa. A Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) previu uma aumento nas vendas totais de 12% em relação ao ano anterior, com destaque para os eletrodomésticos. A farra, no entanto, não deve durar muito.

Na verdade, a economia já mostra sinais de recuperação, então isso não pode ser mantido para sempre diz Luiz Roberto Cunha, professor de economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).