Copom: a menor taxa de juros da História

Ricardo Rego Monteiro, Jornal do Brasil

RIO - Sob uma saraivada de críticas de empresários, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) diminuiu o ritmo de queda da taxa de juros, ao anunciar quarta-feira uma nova redução da Selic de 1 ponto percentual, de 11,25% ao ano para 10,25%. Projeções da Fecomércio-RJ indicam que, ao não baixá-la em 1,5 ponto percentual, o governo deixa de economizar R$ 3 bilhões no pagamento do serviço da dívida pública. Apesar da decepção, a redução foi suficiente para deslocar o país da indigesta liderança no ranking dos maiores juros do mundo.

Com juro real (descontada a inflação do período) de 5,8%, desde quarta-feira, o Brasil ocupa a terceira colocação na lista, atrás respectivamente de China (6,6%) e Hungria (6,4%), de acordo com cálculos da consultoria Uptrend. Em termos nominais, o Brasil fica atrás apenas de Venezuela (17,10%), Islândia (15,5%) e Rússia (12,5%). Entre as grandes economias, a crise derrubou as taxas para patamares próximos de zero. É o caso dos EUA (entre 0,25% e 0%), União Europeia (1,25%), Coreia (2%) e Austrália (3%).

O corte de quarta-feira representou a terceira redução seguida da taxa básica, que estava em 13,75% ao ano no início de 2009. Em janeiro, o Copom reduziu a Selic para 12,75%, e em março para 11,25%. Desde o fim de 2003, no início do governo Lula, o BC não promovia uma sequência de cortes de juros dessa magnitude. Os diretores do BC só voltam a se reunir nos dias 9 e 10 de junho.

Economia perdida

Embora tenha desagradado a indústria, o corte de 1 ponto percentual já era esperado pelo mercado financeiro. De acordo com a pesquisa Focus, realizada pelo BC com o mercado financeiro, os economistas esperam agora mais dois cortes seguidos nos juros: para 9,50% em junho e 9,25% em julho. Depois disso, a taxa só voltaria a cair em 2010, para 9% ao ano.

Empresários e sindicalistas esperavam a manutenção do ritmo de queda das duas últimas reuniões, que decidiram por quedas de 1,5 ponto percentual da taxa. Levando-se em consideração o quadro favorável das expectativas de inflação, para o Sistema Firjan, a decisão de reduzir o ritmo de queda da Selic é inconsistente com as condições da economia brasileira , criticou quarta-feira a entidade, por meio de nota.

O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro Neto, considerou a redução positiva, mas cobrou cortes mais incisivos para mitigar os efeitos da crise mundial.

O atual ciclo recessivo da economia exige um corte mais substancial da Selic disse, ao acrescentar que a decisão de quarta-feira do Copom atrasa o processo de recuperação da atividade econômica.

A Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústria de Base (Abdib) cobra do governo medidas paralelas ao corte da Selic para forçar a queda dos spreads bancários. Em nota, o presidente da Associação, Paulo Godoy, justifica que os spreads encontram-se no maior patamar desde o início da década.

A Fecomércio-RJ afirma, por sua vez, que o país deixa de economizar R$ 3 bilhões no serviço da dívida indexado à Selic, ao não reduzir a taxa básica em 1,5 ponto percentual na reunião de quarta-feira. De acordo com cálculos da entidade, que representa o comércio no estado do Rio, a redução de 1 ponto vai proporcionar economia de R$ 8 bilhões para os cofres públicos. Se caísse 1,5 ponto, a economia chegaria a R$ 11 bilhões.