Recuperação do emprego exorciza fantasma da recessão no país

Gabriel Costa e Ubirajara Loureiro, Jornal do Brasil

RIO - A ligeira recuperação do emprego divulgada nesta quarta-feira pelo Ministério do Trabalho, com a criação de 9.179 vagas com carteira assinada em fevereiro, veio confirmar o discreto otimismo que se espalha no governo. O Ministério da Fazenda já trabalha com a hipótese de que o país vai conseguir escapar da recessão no primeiro trimestre deste ano. Fontes do Ministério confirmaram que, apesar de prognósticos em contrário, a economia já não enfrentaria um quadro de queda abrupta como a do último trimestre de 2008. E melhor: já haveria indícios consistentes de tendência de recuperação.

Um dos indícios mais evidentes de recuperação estaria na área de recicláveis basicamente metais e papelão absorvidos pela indústria de transformação. Por característica, tal mercado funciona a partir de operações à vista, nas quais os preços refletem imediatamente qualquer movimento de retração ou expansão. Embora sem expor números, a Fazenda revela que já teria detectado não só a recuperação das cotações, como também do consumo de energia. Também já se verifica reação nos setores de serviços, de administração, veículos e comércio em geral.

O prognóstico de fim do mundo não condiz com esses indicadores diz a fonte, que aproveita para ridicularizar a projeção de queda de 4,5% no PIB do Morgan Stanley.

Eles têm que conversar mais com o pessoal da economia real. E aí, apesar da tradição do choro dos empresários, já se ouve que está havendo discretas melhorias. Achamos difícil algum setor da economia real querer enganar o Ministério da Fazenda. Somos pragmáticos, tudo anda lentamente, mas apostamos que quem aposta em recessão em 2009 vai errar. Como já erraram quanto à inflação, quando a alta a partir das commodities era apresentada como tendência de longo prazo. Depois, o que se viu é que cederam as cotações das commodities e a inflação.

Reação em fevereiro

Puxado pelo setor de serviços, o emprego formal voltou a crescer em fevereiro, após três meses seguidos de queda. No mês passado o saldo ficou positivo em 9,179 mil vagas. Apesar da alta, o número representa o pior resultado para meses de fevereiro desde 1999. No primeiro bimestre do ano, o emprego acumula queda de 0,29%, o equivalente a 92,569 mil vagas. O número é resultado das contratações (1,233 milhão), acima das demissões (1,224 milhão).

Nos últimos 12 meses, até fevereiro, o estoque de emprego do Brasil encolheu 700 mil vagas com carteira assinada. Nesse período, o estoque cresceu 3,28% para 1,01 milhão. Porém, em igual etapa de 2008 o total era de 1,711 milhão de vagas. Os dados fazem parte do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgado nesta quarta pelo ministro do Emprego e Trabalho, Carlos Lupi, que mantém a previsão de o Brasil alcançar um número entre 1,4 milhão e 1,5 milhão de novos empregos este ano.

Tendência revertida

Para o professor Claudio Dedecca, do Instituto de Economia da Unicamp, os números mostram reversão de tendência importante. Dedecca conta que esperava resultados muito piores, em torno de 50 mil postos fechados, após os desanimadores dados de janeiro e dezembro, quando foram eliminadas 101 mil e 654 mil vagas, respectivamente.

Eu esperava que a possibilidade de reversão viesse nos resultados de março, e não de fevereiro. Os dados sugerem que em abril já poderemos ter uma recuperação significativa avalia Dedecca.

O economista não descarta, porém, a possibilidade de recessão técnica para o país diante dos resultados esperados para o primeiro trimestre, mas acredita que os indicadores sinalizam retomada já no segundo.

Alcides Leite, economista e professor da Trevisan Escola de Ngócios opina na mesma direção. Para Leite, embora os dados do Caged abranjam apenas o setor formal da economia, retratam a situação de todo o território nacional. A inversão da tendência parece ter se consolidado.

O economista diz que não ficaria surpreso se, no fim do ano, for registrada a criação de 1 milhão de novas vagas.