OCDE teme que crise bloqueie investimentos do PAC

Portal Terra

PARIS - Um estudo da Diretoria de Agricultura e Comércio da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento (OCDE), divulgado nesta terça-feira, conclama as grandes economias emergentes a investir mais nas produções agrícolas locais, sem, no entanto, que isso represente a redução das exportações. No caso do Brasil, a entidade exaltou "potencial de melhora muito necessária em infra-estrutura", visada pelas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), mas teme que a crise econômica bloqueie os investimentos.

- A crise financeira pode ter severos impactos no sucesso deste programa- diz o relatório.

- No mercado interno, não podemos descartar o risco de faltar dinheiro para a produção. Além disso, podem faltar recursos para as obras de infra-estrutura que auxiliam a produção. Estes poderão ser os efeitos diretos da crise financeira no crédito para produção agrícola brasileira- avaliou Olga Melyukhina, responsável pelos dados do Brasil e da Ucrânia.

- Mas é muito cedo para dizer o quanto a crise vai afetar o setor, inclusive porque a desvalorização do real face ao dólar poderá ter um papel importante para minimizar os efeitos. Não podemos esquecer que como o Brasil tem uma extensão de terras enorme, ele tem uma capacidade muito maior para fornecer mais para os países que têm piores condições de produção- ponderou a especialista.

Estímulo à produção nos emergentes

Face à ameaça de insegurança alimentar das populações pobres em decorrência da recessão econômica mundial, o objetivo do estudo "Políticas Agrícolas das Economias Emergentes: acompanhamento e avaliação 2009" foi analisar quais as medidas que os países em desenvolvimento estão tomando para atenuar os custos dos produtos de base, para o consumidor, e assegurar o estoque de alimentos em um momento de alta instabilidade dos preços.

- É provável que a recessão econômica mundial incite os governos a concentrar suas ações em medidas com efeitos de curto prazo, ao invés de adotarem as de longo prazo- explica Andrzej Kwiecinski, coordenador da pesquisa.

- A crise financeira ameaça reduzir as possibilidades de empréstimos aos agricultores e aos outros operadores do setor agrícola que dependem do crédito e, além, disso o investimento externo direto, essencial para o desenvolvimento rural, vai sem dúvida diminuir igualmente- disse, durante uma coletiva de imprensa realizada na sede da organização, em Paris, na manhã desta terça-feira.

O resultado é que, para garantir o fornecimento interno, os países emergentes estão com tendência a reduzir ou suspender as taxas de importação para os alimentos ou impondo obstáculos à exportação, sobretudo através de taxas. Índia, Rússia e Ucrânia são os países que mais têm adotado políticas deste tipo.

- Embora essas medidas possam aumentar os estoques alimentares a curto prazo, o reforço do protecionismo e a adoção de políticas de auto-suficiência acentua a instabilidade dos preços dos produtos agrícolas nos mercados mundiais e reduz o comércio internacional- comentou o diretor de Alimentos, Agricultura e Pesca da OCDE, Ken Ash.

O relatório alerta que os países emergentes ainda investem muito pouco no campo, se comparados com o investimento realizado nos países membros da OCDE, que reúne as 30 nações mais ricas do planeta. No Brasil e na Rússia, por exemplo, o apoio financeiro ao produtor rural foi de 6% e 14% das receitas brutas agrícolas entre 2005 e 2007, enquanto que a média dos países desenvolvidos é de 26%.

Para proteger o mercado interno, as sete economias emergentes estudadas - Brasil, África do Sul, Chile, China, Índia, Rússia e Ucrânia - também estão apresentando uma tendência à superprodução. No entanto, em função da crise, os estoques poderão não ser comercializados.

Para reforçar o setor agrícola a longo prazo, o relatório recomenda a redução do apoio dos governos em setores específicos da agroeconomia e a concentrar os esforços na reorientação dos estímulos à pesquisa, à infra-estrutura, à formação e à comercialização.

- É preciso aumentar os investimentos públicos para melhor equilibrar a oferta e a demanda e melhorar a competitividade na agricultura a longo prazo- defendeu Kwiecinski, ressaltando ainda que os governos dos países em desenvolvimento precisam encontrar meios garantir uma renda mínima aos produtores.

Uma falha do estudo, no entanto, é que ele se realizou entre 2006 e 2008, se encerrando justamente quando a crise econômica abateu com mais força a economia. Desta forma, a pesquisa não aponta perspectivas concretas e é genérico em relação às informações atuais sobre cada país.

- Os efeitos da alta dos preços dos alimentos e da energia nos últimos anos serão agravados pela crise econômica. As conseqüências óbvias serão a diminuição do crédito para a produção agrícola, o aumento dos juros e a contração dos investimentos estrangeiros - que é essencial para as economias emergentes- disse Ash.

- Como efeito indireto provável, o protecionismo é o pior deles, pois vai ocasionar o desestímulo à produção e, assim, vai trancar o mercado cada vez mais, dificultando a saída da crise e o retorno à normalidade- completou ele.