Ipea contabiliza uma retração de R$ 140 bilhões no país

Viviane Monteiro, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que a crise já atingiu a economia brasileira, principalmente os estados mais industrializados. Segundo estudo do Ipea, a crise internacional começou a prejudicar a atividade econômica em dezembro, sobretudo em estados da região Sudeste que apresentaram queda na produção industrial e foram responsável por mais de 55% das demissões em janeiro, sobretudo em São Paulo e Minas Gerais.

No mês passado, o boletim do Ipea afirmava que o pior da crise já havia passado, e que o ápice teria ocorrido no último mês de 2008, chamado de dezembro negro . Só que, depois da drástica queda do PIB (-3,6%) no último trimestre de 2008, em relação ao período anterior, os técnicos do Ipea agora dizem que o momento ainda é de incertezas. Os efeitos da crise devem ser sentidos ainda por algum tempo , destaca o documento do órgão ligado ao Ministério do Planejamento.

No Nordeste, o efeito da crise tem uma certa defasagem, porque a participação da indústria na economia é menor. Porém, segundo a diretora de estudos regionais do Ipea, Liana Carleial, alguns estados mais industrializados da região, como Pernambuco e Ceará, já começam a apresentar desaceleração na atividade econômica. Os dados são do 3º boletim mensal da instituição: Crise Internacional: metamorfose de empresas transnacionais e impactos nas regiões do Brasil, divulgado nesta terça-feira.

Injeção do governo

O Ipea vê como solução para o problema a atuação do governo para impedir que a crise se espalhe para outros estados e se intensifique naqueles já prejudicados. Neste caso, a especialista do instituto defende uma atuação coordenada entre União e Estados para que possam gastar mais na economia e evitar novas demissões. Segundo ela, para o Brasil crescer 5% este ano, mesmo patamar de 2008, seria necessário o governo injetar R$ 140 bilhões na economia.

Essa cifra cairia a zero caso o país deixasse de crescer 5% e avançasse apenas 0,5%, conforme a atual previsão do mercado. Para garantir taxa de crescimento robusta, o Ipea sugere que o governo aplique na economia, pelo menos, R$ 101,4 bilhões em 2009, dos quais R$ 71,4 bilhões seriam recursos do superávit primário obtido no ano passado.

A especialista explicou que os investimentos públicos aplicados na economia se multiplicariam, garantindo emprego e crescimento do PIB. E assim seria possível o governo cobrir parte da perda de investimentos prevista pelo setor privado. O Tesouro Nacional não quis comentar os números do estudo do Ipea.

O estudo foi divulgado no mesmo dia em que os ministros da Fazenda, Guido Mantega, e do Planejamento, Paulo Bernardo, se reuniram com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Brasília, para discutir medidas na área fiscal que contribuam para minimizar o impacto da crise. Entre as quais, a redução do superávit primário para assegurar o aumento dos investimentos públicos.

O Ipea mostra que, em economias mais desenvolvidas, para cada dólar público aplicado no mercado, gera-se um adicional de US$ 1,5 na produção agregada. No caso do Brasil, a estimativa é de que para cada real público investido haveria impacto de R$ 1,43 na produção agregada.

No entanto, o Ipea identificou outro problema que é a queda da arrecadação tributária nos estados, principalmente a do ICMS. Para encontrar uma saída, segundo a especialista, o governo federal precisaria analisar a capacidade dos estados individualmente a fim de liberar recursos para investimentos.

Hoje, os estados têm restrição de investimento pela Lei de Responsabilidade Fiscal e grande parte das dividas estaduais ainda estão em fase de negociação com Tesouro Nacional. O Ipea sugere que o Tesouro Nacional renegocie dívida de estados endividados em dólar.