Sinais de desaceleração persistem, dizem especialistas

SÃO PAULO, 10 de março de 2009 - A retração acentuada da economia brasileira no último trimestre de 2008, somada aos dados fracos do início deste ano e às perspectivas pouco animadoras para o restante dele, apontam para um crescimento muito baixo do Produto Interno Bruto (PIB) em 2009. A avaliação foi feita por Silvio Campos Neto, economista-chefe do Banco Schahin. "Mantemos nossa projeção de 0,7%, embora exista claro viés de baixa. Não se pode descartar crescimento zero ou até mesmo levemente negativo no total deste ano", disse.

Segundo ele, já era esperado que a freada na atividade industrial fosse impactar negativamente o PIB brasileiro, entretanto, a dimensão desse impacto surpreendeu os analistas que esperavam taxas melhores. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou hoje que a economia brasileira cresceu 5,1% em 2008, somando R$ 2,9 trilhões, entretanto, houve uma queda 3,6% na passagem do terceiro para o quarto trimestre, efeito da retração mundial provocada pela crise financeira iniciada nos Estados Unidos.

Rodrigo Nassar, gerente da mesa financeira da Hencorp Commcor Corretora, acredita que esse cenário pode contribuir para que o Comitê de Política Monetária (Copom) seja mais agressivo. "Já estamos esperando que o Banco Central (BC) anuncie amanhã um corte de 1,5 ponto percentual nos juros", disse. O Copom se reúne hoje e amanhã para discutir mais um corte da taxa básica de juros (Selic), atualmente em 12,75% ao ano.

Para Campos Neto, o ciclo de baixa da Selic irá prosseguir nos próximos meses, com os juros podendo atingir um dígito no início do segundo semestre. Já os analistas da LCA Consultores avaliam que o afrouxamento dos juros pode ser maior a partir desta reunião. "O resultado do PIB deve fazer com que ganhe força a possibilidade de um corte da Selic superior a 1,5 ponto percentual nesta reunião do colegiado", ressalta em relatório.

A aposta se baseia no fato da crise ter conseguido fazer o que o BC não conseguia com a política monetária: reduzir a inflação. "A crise conseguiu controlar um problema que teríamos de enfrentar por conta do crescimento da economia acima da sua capacidade, mas isso não pode ser considerado como positivo, pois afeta de forma devastadora o país. Não é uma forma desejável para resolver", explica.

A piora do resultado no último trimestre do ano foi puxada pela queda expressiva de 7,1% no setor industrial (no âmbito da oferta), e de 9,8% nos investimentos (no lado da demanda). Adicionalmente, o consumo das famílias também surpreendeu, com recuo de 2% na margem, após crescer por 21 trimestres consecutivos. "Reflexo da redução do crédito, mas principalmente da mudança de comportamento dos brasileiros que ficaram mais cautelosos diante das incertezas quanto ao futuro do emprego e da renda", avalia Campos Neto.

Nassar, acredita que essa cautela tem motivos para existir. "A economia ainda não está dando sinais de recuperação. As empresas continuam demitindo e o efeito cíclico desse processo ainda não chegou na economia real", acredita.

De acordo com a LCA, com base em dados preliminares que, neste 1º trimestre de 2009, o PIB brasileiro pode ter variação nula sobre igual período de 2008, o que corresponderia a uma expansão de cerca de 0,9% sobre o quarto trimestre do ano passado (feito o ajuste sazonal).

(Vanessa Stecanella - InvestNews)