Ex-diretores de bancos do Reino Unido fazem sua mea-culpa em público

Agência AFP

LONDRES - Os ex-diretores dos bancos britânicos RBS e HBOS fizeram nesta terça-feira publicamente um ato de contrição por seu papel na crise financeira, e admitiram que é preciso rever as remunerações do setor, enquanto a polêmica sobre os "bônus" dos executivos esquenta no Reino Unido.

Dennis Stevenson e Andy Hornby, respectivamente ex-presidente e ex-diretor-geral do HBOS, e seus ex-rivais do Royal Bank of Scotland, Tom McKillop e Fred Goodwin, prestaram depoimento durante mais de três horas na comissão de Finanças da Câmara dos Comuns, em uma audição transmitida ao vivo pela televisão.

Sob os olhares dos deputados e diante das câmaras, cada um deles manifestou seu "profundo arrependimento e pediu desculpas" por terem fracassado em prevenir a crise financeira, que quase provocou a falência de seus estabelecimentos e levou-os a uma nacionalização parcial.

Tom McKillop se mostrou particularmente franco, admitindo que a compra do banco holandês ABN Amro (maior aquisição da história do setor bancário, realizada em 2007 por RBS, Fortis e Santander) "foi um grave erro".

- Nós pagamos muito alto pelo ABN Amro, e tudo o que pagamos não valia a pena- disse McKillop.

E o ex-diretor geral do Royal Bank of Scotland, Fred Goodwin, também fez sua mea-culpa, agora que o banco deve registrar perdas anuais recordes, de mais de 30 bilhões de euros.

- Já pedi desculpas e estou feliz de fazer isso novamente- afirmou.

Nos dois planos de resgate anunciados em novembro e em janeiro pelo governo britânico, o RBS está prestes a ser comprado em quase 70% pelo Estado, que detém também 43,4% do capital do Lloyds Banking Group, dono do HBOS (Halifax-Bank of Scotland).

Depois de admitirem ter carecido de perspicácia e fracassado na previsão da crise, eles destacaram que as responsabilidades eram de todos.

- Eu não acho que ninguém tenha previsto que as coisas fossem piorar tão rapidamente como aconteceu, e não acredito, para ser honesto, que o Banco da Inglaterra tenha antecipado a crise- disse Goodwin.

Hornby no entanto aderiu ao discurso dos que pedem uma reforma dos "bônus", os famosos prêmios acusados de terem seduzido os empresários da City a assumir riscos exacerbados na esperança de enormes ganhos, e que estão atualmente nos bastidores do governo.

Enquanto do lado de fora do Parlamento, funcionários dos bancos denunciavam a diferença entre os bônus de seus chefes e os prêmios frequentemente modestos (algumas centenas de euros) dos assalariados de base, Andy Hornby e Fred Goodwin garantiram ter investidos os seus em ações, cujos valores derretaram como neve no sol.

Na segunda-feira, o primeiro-ministro britânico Gordon Brown declarou que se opõe totalmente à "cultura dos bônus" nos bancos, advertindo que "não se pode recompensar o fracasso".

- A 'cultura dos bônus' a curto prazo acabou- assegurou Brown, em coletiva de imprensa enquanto cresce a indignação no Reino Unidos pelos planos dos bancos nacionalizados de pagar onerosos prêmios a seus executivos.

- Não haverá recompensas para o fracasso- assegurou o premiê britânico.

- Só serão premiados os êxitos sustentáveis a longo prazo- acrescentou.

As informações de que o Royal Bank of Scotland pretendia pagar a seu pessoal cerca de um bilhão de libras esterlinas (1,5 bilhão de dólares, 1,1 bilhão de euros) em bônus no presente ano causou indignação no Reino Unido.

Em função disso, o ministro das Finanças, Alistair Darling, antecipou que o ministério do Tesouro realizaria uma investigação independente sobre os bônus pagos no setor bancário e sobre a possível ligação entre esses prêmios e os excessivos riscos tomados nos mercados.