Fraude de Madoff enganou mais de 20 brasileiros

Osmar Freitas Jr., Jornal do Brasil

NOVA YORK - O advogado americano David Rosemberg já recebeu consultas de mais de 20 brasileiros que teriam perdido dinheiro no esquema fraudulento do megainvestidor Bernard L. Madoff, acusado de comandar um megaesquema de pirâmide que deu prejuízos avaliados em US$ 50 bilhões.

A lista de clientes do fraudador foi divulgada na semana passada, mas nela constava apenas um cliente com endereço no Brasil Anna Maria Assumpção, moradora de São Paulo. Todos os demais constavam com endereço nos Estados Unidos.

Procurada pelo Jornal do Brasil, a vítima não quis atender a reportagem. Os aplicadores, particulares ou agentes intermediários, teriam confiado em várias instituições financeiras nas operações com o fundo que prometia entre 1% e 1,5% de rendimento mensal.

Entre as empresas citadas por Rosemberg estariam os bancos Santander, Safra e UBS-Pactual, além do fundo americano Fairfield Greenwich. Só da primeira empresa teriam partido algo em torno de US$ 300 milhões provenientes do Brasil.

Tanto o Safra, quanto o Santander negam que suas subsidiárias brasileiras tenham feito qualquer tipo de aplicação no fundo de Madoff. Porém, já se sabe que esses clientes se utilizaram de filiais das casas bancárias no exterior. O mesmo pode ter ocorrido com o UBS-Pactual. Quanto à Fairfield Greenwich, confirma-se que a firma fazia corretagem com Madoff e é uma das que mais perderam recursos de seus clientes. A empresa, porém, não faz comentários sobre suas atividades.

Fontes do Jornal do Brasil no escritório do promotor distrital de Manhattan que encabeça as investigações no caso pedem anonimato, mas revelam que a maioria das aplicações brasileiras foram feitas num esquema que chamaram de ônibus .

Por este mecanismo, era possível juntar um rol de aplicadores em uma só conta explicou a fonte, um investigador chefiado pelo procurador distrital Robert Morgenthau. Madoff trabalhava com aplicações mínimas de US$ 4 milhões, o que exigia parcerias de quem não dispunha desta verba individualmente. Esta é a razão pela qual muitos investidores procuravam a intermediação de serviços de gestão de fortunas de bancos estabelecidos. Nas listas de aplicadores que surgem agora, mas ainda incompletas, não aparece caso de aplicador do Brasil com US$ 4 milhões.

Sabe-se que somente o Santander perdeu cerca de US$ 3 bilhões no esquema de Madoff. Do Safra foram dilapidados até investimentos dos fundos de instituições de caridade em Israel.

Já são 20 as consultas a brasileiros que procuraram o Broad and Cassel (escritório de advocacia de Miami, onde trabalha Rosemberg) diz Rosemberg. Eles vêm de várias cidades brasileiras e cada um representa um caso diferente. A maioria sequer sabia que seu dinheiro estava aplicado com Madoff.

A recuperação das aplicações será difícil e demorada.

Madoff não mantinha uma contabilidade exemplar. Muitas vezes, seus relatórios de rendimentos eram apenas cartas, sem registro em livros, e destinadas aos clientes diz a fonte da promotoria de Manhattan. A Security Investor Protetion Corp (organização garantidora se seguro contra fraudes em investimentos nos EUA), afiança até US$ 500 mil a cada aplicação fraudada. No caso das contas ônibus , com múltiplos investidores, esta quantia teria de ser dividida entre eles. Conta-se como apenas um aplicador.

Origem dos recursos

A fonte ressalta que o histórico de retiradas e depósitos no fundo Madoff terá de ser rastreado para se saber quem perdeu e quanto foi perdido. Pelo que se vê, conta, esta tarefa será dificultada pela própria opacidade dos registros do operador.

No caso do Brasil, acho que também se abre a questão de origem destes recursos. As autoridades brasileiras com certeza devem perguntar se este dinheiro foi declarado, antes de ser aplicado aqui. Ou se as transações cumpriram as leis locais.

Aplicadores de muitos países estão descobrindo que suas perdas serão muito difíceis de serem explicadas às autoridades de suas nações. Trata-se de investidores que não declararam ao fisco que tinham aquelas quantias e não acusaram supostos rendimentos das aplicações lembra a promotoria de Manhattan.