Mesmo com crise, banco ainda é o sonho dos trabalhadores

Jornal do Brasil

NOVA YORK - O banco quebrou. Sua reputação está em frangalhos. E foi despejado do último prédio onde funcionava o centro de operações. Ainda assim, trabalhar para o Lehman Brothers, ou o que restou dele se tornou um dos empregos mais quentes de Wall Street, revela reportagem do Wall Street Journal.

Isso porque o Lehman, apesar de não chegar aos pés do que já foi, depois de vender muitos de seus negócios para o Barclays PLC e Nomura Holdings, retém um grande remendo de títulos. Tem US$ 7 bilhões em dinheiro e mais de 1,4 mil investimentos privados avaliados em US$ 12,3 bilhões, segundo o jornal nova-iorquino. Tem ainda cerca de 500 mil contratos derivativos com 4 mil parceiros comerciais no valor de US$ 24 bilhões.

Então, por enquanto, a instituição é vista como um lugar relativamente seguro para muitos profissionais de finanças demitidos nos últimos meses. Até Richard Fuld, ex-CEO do Lehman, trabalha lá informalmente.

Recebemos uma enxurrada de currículos afirmou Bryan Marsal, especialista em crise que agora é CEO do Lehman, à publicação.

São profissionais que, segundo Marsal, já trabalharam no Bank of America, Citigroup e Morgan Stanley.

Essa é uma época muito difícil, e há muitas pessoas boas procurando emprego por lá diz o CEO da instituição.

Os salários não são altos em relação a padrões passados, mas há benefícios implícitos. Poderia levar dois anos ou mais para detonar a firma. Esse cronograma promete o tipo de segurança do trabalho que é raridade em Wall Street hoje.

O cronograma da dissolução

De acordo com o Wall Street Journal, o encarregado de arrumar a bagunça é a Alvarez & Marsal, firma de reestruturação com sede em Nova York, de onde Marsal é co-fundador. Cerca de 150 empregados trabalham o dia inteiro no caso, com a tarefa de vender os ativos remanescentes do Lehman e maximizar a recuperação para credores, que precisam receber mais de US$ 150 bilhões.

Marsal diz que a meta é dissolver a firma em um período de 18 a 24 meses, apesar de vários especialistas em reestruturação dizerem que é um cronograma agressivo. A Alvarez & Marsal entrou na história em setembro, depois do conselho do Lehman indicá-la para administrar os bens da empresa falida. Para completar a missão, a empresa manteve 130 empregados na folha de pagamento da firma, recrutou de volta mais de 200 ex-empregados do Lehman e ainda contrata gente para lidar com áreas-chave como derivativos e títulos de mercado imobiliário.

Nos bastidores, segundo a reportagem, está Fuld, ex-presidente e executivo-chefe da firma, amplamente difamado quando o Lehman quebrou no meio de setembro. Apesar de Fuld ter sido removido da folha de pagamento no dia 1º de janeiro e ter perdido a Mercedes preta fornecida pela companhia, o Lehman concordou em deixá-lo manter um escritório na firma. Ele está perto de Marsal, que admite aproveitar o conhecimento de Fuld sobre o Lehman várias vezes por semana.

Pedimos a ele que ficasse se não tivesse nenhum lugar melhor para ir revelou Marsal. Ele tem feito muito bem em ficar disponível para perguntas sobre os ativos do Lehman.

Procurado pelo Wall Street Journal, Fuld, por meio de uma porta-voz, se recusou a comentar o assunto.

O desmantelamento do Lehman é um processo caro. Custos associados chegam a cerca de US$ 30 milhões por mês, excluindo os honorários dos advogados e conselheiros do caso. Os empregados recebem um salário com modesto bônus de retenção, segundo Marsal, para atrair funcionários a permanecerem por um período limitado.

A missão é uma tarefa lucrativa para a Alvarez & Marsal, que cobra honorários por hora de US$ 550 a US$ 850 para seus mais altos executivos trabalharem no caso, com bônus de incentivo dependendo da recuperação de crédito.

Apesar da dissolução assegurada do Lehman, recrutadores executivos dizem que não é surpreendente que o falido banco de investimento tenha se tornado um lugar desejável para trabalhar.

Este é um emprego que paga bem em um dos piores mercados de trabalho da história afirma Skiddy von Stade, fundador de uma firma de recolocação com sede em Nova York ao jornal. Por meio da disposição dos ativos do Lehman, os empregados vão ter a chance de demonstrar seus pontos-fortes e habilidades para oportunidades mais para a frente, possivelmente junto aos próprios compradores desses títulos e investimentos.

Marsal diz que a compensação está de acordo com empregos semelhantes em Wall Street, ainda que abaixo do que era no Lehman. A equipe está muito cautelosa com as despesas da firma, que, segundo o CEO, são geralmente pequenas.

O excesso do Lehman era o tamanho dos salários e as expectativas das pessoas com o plano de bônus afirma Marsal.

Emprego dos sonhos

Os salários e bônus pagos aos altos executivos no Lehman antes da falência não existem mais. Fuld e sua equipe de gestão sentaram no antigo centro de operações do Lehman, prédio em aço e granito em Times Square. O Barclays comprou o prédio e tomou conta do local. Agora, o centro de comando do Lehman é um escritório mediano no prédio da Time-Life.

Marsal e sua equipe agora vivem sem entregas semanais de flores e bolinhos de chocolate mornos nas sextas-feiras, mimos que eram aproveitados pelos antigos funcionários da firma, conta o Wall Street Journal. Também se foi a suíte para jantar onde um chef contratado preparava almoços para os altos executivos. Em vez disso, Marsal e a equipe fazem uma boquinha em uma cafeteria na Time, que garantiu acesso aos empregados do Lehman.

Luc Faucheux, 39 anos, comanda a mesa na entidade falida que vende swaps de taxa de juros e outros derivativos de renda fixa.

Eu sempre quis este emprego brinca o ex-funcionário do Lehman que tinha uma função importante, mas nem tanto. Cuidado com o que você desejar, porque você pode conseguir.