Economista prevê que desemprego ainda poderá disparar

Leda Rosa, Jornal do Brasil

SÃO PAULO - Mesmo crente que a crise será prolongada, o economista e professor José Carlos de Assis avista no horizonte a gestação de um novo ciclo, que chama de Nova Era, na qual a cooperação dará a tônica. Em entrevista exclusiva ao Jornal do Brasil, o autor do recém-lançado A crise da globalização, analisa a turbulência e critica, entre outros, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e o ministro Paulo Bernardo. E, destemido diante de temas polêmicos, defende a monarquia constitucionalista e limites para a pesquisa genética.

Quais os paradigmas que estão sendo destruídos para dar lugar ao que o senhor chama de Nova Era?

A economia de livre mercado, com sua ideia da auto-regulação; a guerra como continuação da política; a ação predatória sobre o meio ambiente; e o desenvolvimento científico na área da genética, que envolve limites complicados, que podem mudar o caráter ou até extinguir a espécie humana. No fundo, o paradigma central que está sendo superado na Nova Era é o da liberdade ilimitada em suas várias expressões.

Na Nova Era, o novo paradigma das relações internacionais e nacionais é o da cooperação, parido pelo imperativo de conservação da espécie. Mas tal instinto existe desde o início da humanidade, ao lado da destruição pela violência. O que mudou?

A diferença é que havia o instinto, mas não havia o risco, como hoje há, de a espécie desaparecer. O homem está sendo pressionado a agir de forma positiva e não apenas ser levado pela história para garantir a sua sobrevivência.

E como esta mudança se materializa na sociedade?

A forma da cooperação operar é pelo que chamo de cidadania ampliada, processo esboçado desde a Grécia e efetivamente estabelecida apenas na segunda metade do século 20, quando o cidadão tem direito ao voto e presença direta nos processos de controle da política através de movimentos sociais. Este tipo de democracia é que vai controlar o reordenamento da civilização a partir da reconstrução da economia, meio ambiente, geopolítca e na genética.

Como fica a cooperação na esfera comercial diante da tendência mundial de adesão às práticas protecionistas?

Não vejo esta tendência. Em Davos (sede do Fórum Econômico Mundial, no fim de janeiro), o traço fundamental, talvez em todas as exposições, foi a posição de que só podemos sair pela cooperação e não pelo protecionismo.

O senhor não vê protecionismo, por exemplo, no caso do artigo do plano americano de estímulo que propõe veto à compra de ferro e aço estrangeiros para projetos de infraestrutura nos EUA?

Acho que o plano do Obama está certo ao pedir exclusividade direcionada para o mercado interno, porque, em se tratando de gastos fiscais, há o risco dos recursos escoarem para o exterior se não forem bem administrados.

Na sua opinião, o Estado tende a tornar-se a vanguarda do trabalho e não mais dos interesses burgueses. Mas, na crise, o que temos visto até agora é o repasse de trilhões de dólares para o capital e trabalhadores indo às ruas lutar por seus empregos. Onde o Estado seria a vanguarda dos interesses dos trabalhadores?

O conceito de trabalho aqui tem sentido mais amplo, como setor produtivo, aquele que produz mercadorias e serviços. Um bom exemplo é o caso americano. Desde o começo da crise, o governo americano tem enfrentado grandes dificuldades para destinar recursos para salvar o sistema financeiro, exatamente por causa da opinião pública que quer o governo direcionado a ajudar os cidadãos endividados.

Suas análises indicam que a produção não avança porque é bem mais lucrativo aplicar os recursos em títulos públicos, pela taxa de juros. Como desamarrar este nó?

Baixando muito a Selic, que teria que vir para algo em torno de 6% a 7% ainda em 2009. Temos que reagir. Fevereiro e março serão desastrosos. Estamos em recessão, caminhamos para a depressão. O problema da demanda agregada só tem três saídas: política monetária que geralmente é ineficaz pelo empoçamento do crédito; exportações, que no Brasil colapsaram porque a demanda internacional caiu; e a política fiscal. Nesta área, temos a boa vontade do presidente Lula em ampliar o orçamento, mas o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, corta 25% da verba. Assim, o desemprego vai disparar.

No livro, o senhor diz que a política de metas estabelecida por Henrique Meirelles à frente do Banco Central é um dos maiores monumentos à estupidez econômica jamais construído pelo gênio humano. Diz que as metas só são mantidas, entre outros fatores, porque o presidente Lula, um ex-metalúrgico, tem pavor da volta da inflação. Se o presidente lhe ouvisse agora, como o senhor o convenceria que sua posição é a mais correta?

Entendo a situação do presidente. Sempre critiquei a política monetária e fiscal, mas a economia estava crescendo e, na expansão, é claro que ele tinha imensa dificuldade em mudar. As commodities subiam de preço, a demanda aumentava. Fatores como o Bolsa Família e o aumento do salário mínimo também têm efeito sobre a demanda. Mas a demanda por commodities mudou. Temos que mudar a política monetária. O presidente, com seu instinto, vai ver que tem que mudar. Como já dizia o Galbraith (John Kenneth Galbraith, 1908-2006, economista naturalizado americano): nas crises não são os homens que tomam as decisões, são as circunstâncias.

Qual a saída para a retomada do crescimento e dos empregos no Brasil?

Expansão fiscal, com gastos públicos para valer, especialmente de baixo para cima, em setores que gerem emprego.

O senhor diz que o neoliberalismo e seus rebentos, os fetiches do mercado livre e da auto-regulação, estão sepultados. Mas o sistema financeiro parece sempre achar o caminho da sobrevivência e criar novos produtos de risco, até a próxima crise. Por que isto não aconteceria na Nova Era?

Discordo. O contexto geral é novo, não há como voltar a um sistema desregulado. Nos anos 30 criaram-se paradigmas, mas o neoliberalismo voltou por uma série de circunstâncias que não se darão mais, como a Guerra Fria. Todos os paradigmas mortos empurram para um sistema mais regulado.

Sobre a crise, estamos no começo, meio ou no fim?

No começo. Se fosse um gráfico não seria em V, mas em U, com a base prolongada. Ou, pior, do tipo em L, como a japonesa dos anos 90, que tem se arrastado até o presente. De qualquer forma, será longa e profunda.

Como vê o desenho de uma nova arquitetura financeira mundial, defendida pelo G-20?

A intenção está correta e a Idade da Cooperação começa por aí, tem que ser um grupo central que proponha e leve em conta interesses alheios. A sombra de Keynes (John Maynard Keynes, 1883-1946, economista britânico cuja teoria exerce enorme influência nas medidas adotadas pelos governos diante da crise) pode ajudar.