Demora da reação do governo encarece o custo de saída da crise

Ludmilla Totinick e Gabriel Costa, Jornal do Brasil

RIO - O Brasil demorou a acordar para a crise financeira mundial. Pelo menos é o que acreditam alguns dos principais especialistas ouvidos pelo Jornal do Brasil. Como se não bastasse o que classificam de falta de prevenção contra uma turbulência que já se ensaiava há mais de um ano, a demora em tomar as providências necessárias deverá tornar a recuperação mais cara e pior demorada para o país.

Poucos prestaram atenção, mas os sinais já chegavam de fora do país desde o último trimestre de 2007. O crédito em expansão, o número recorde de empregos, a euforia da Bovespa e a produção industrial em disparada levaram o Brasil a acreditar que estava protegido da bolha que encobria o mundo real. Nos dois últimos meses, no entanto, o que se acreditava uma marolinha terminou por inundar de vez o país com a força de uma tsunami. Agora, não é mais possível negar que o país sente os efeitos da turbulência junto com o resto do mundo.

Professor de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp), Anselmo Luís dos Santos afirma o governo foi lento para tomar decisões devido às condições especiais do país. De acordo com o economista, o Brasil tem peculiaridades como uma política monetária extremamente conservadora, que observou de braços cruzados o resto do mundo aumentar o número de desempregados e reduzir a produção industrial.

Um dos motivos foi o fato de o governo ter ficado acompanhando o comportamento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, que mostrou crescimento do terceiro trimestre em relação ao segundo, enquanto o resto do mundo sofria uma desaceleração. O Banco Central ficou olhando para trás com medo da inflação e esperando os impactos mais fortes da crise atingirem a economia. Dadas as proporções reais, por que o governo não tomou as medidas? questiona Santos.

Políticas conturbadas

Na avaliação de Reinaldo Gonçalves, professor de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o governo não só demorou a adotar medidas, como demonstra o que classificou de comportamento inconsistente e irresponsável.

Tal incoerência, de acordo com o economista, ficou mais clara esta semana, quando o governo voltou atrás em relação à exigência de licença de importação para determinados produtos. A medida durou apenas três dias.

Foi uma decisão completamente desastrada avalia o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro.

Gonçalves critica também a contenção de R$ 37,2 bilhões do Orçamento Geral da União até março. Do total, R$ 22,6 bilhões referem-se a custeio e R$ 14,6 bilhões, a investimentos.

A decisão de corte vai no sentido contrário do resto do mundo todo, é muito incoerente adverte Gonçalves. Em momentos de crise, a redução no orçamento afeta diretamente a economia.

Santos compartilha a opinião, ao avaliar que o corte só vai agravar o cenário.

Não adianta você querer cortar gastos correntes no contexto de agravamento de demanda, isso joga contra comenta.

Especialista em contas públicas Raul Velloso, ex-secretário de Assuntos Econômicos do Ministério do Planejamento, discorda.

O orçamento tem que ser ajustado afirma Velloso, que aprova a medida de congelamento. A arrecadação do primeiro trimestre vai dar uma idéia mais precisa do que o governo precisará fazer. Mas não dá para segurar por muito tempo. Três meses é um período adequado.

Apesar da avaliação positiva quanto aos cortes prévios no orçamento, Velloso se diz preocupado com o que classificou de postura reativa, e não preventiva, do governo frente à crise.

Nós dormimos no ponto. O setor público brasileiro, onde eu vejo as maiores dificuldades, deveria estar preparado não apenas para esta, mas para qualquer crise. Acontece que o governo não aproveitou o período de bonança, quando a arrecadação crescia mais do que o PIB criticou.

Para Velloso, o setor público agora enfrenta o desafio da rigidez dos gastos, porque desprezou investimentos em infra-estrutura e jogou os recursos para a Previdência, assistência social e saúde. Esses setores, ressalta, são difíceis de flexibilizar.

Reflexos para o contribuinte

Nesse contexto, cabe ao governo desenvolver mecanismos para amenizar o impacto sobre a população de uma situação que nasceu da imprudência e se agravou com medidas desastradas de reação. Anselmo Luís dos Santos sugere, além da redução dos juros pelo Banco Central, um corte urgente dos impostos.

Essa idéia de autonomia do Banco Central custa caro. Só jogou lenha na fogueira da crise. Aumentou desemprego, reduziu produção, aumentou a dívida pública, reduziu reservas ressalta. O governo já deveria ter se preparado para tornar a renda disponível principalmente para pessoas de baixa renda, assim como os governos de outros países fizeram ao lançar pacotes.