Contas externas deram primeiro sinal do 'tsunami'

Ludmilla Totinick e Gabriel Costa, Jornal do Brasil

RIO - Enquanto a quebra do banco de investimentos Lehman Brothers, no dia 15 de setembro de 2008, é considerada o marco zero da crise financeira, os resultados das contas externas brasileiras já deveriam ter sido considerados motivos de preocupação naquela época, afirma José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

Claramente, nós fingimos que a crise não existia. Na exportação, a crise já era visível em setembro. As commodities, depois de subirem muito, já estavam em queda afirma Castro.

Em um cenário tão delicado, medidas inesperadas, como a exigência de licenças automáticas para a importação de 60% dos produtos vindos do exterior, podem prejudicar o equilíbrio econômico do país. Por sorte, afirma Castro, o governo voltou atrás na decisão.

O professor Reinaldo Gonçalves, da UFRJ ressalta que a vulnerabilidade externa do Brasil é grande, e afeta fortemente tanto o saldo da balança comercial como a geração de renda interna.

Para isso existe a Organização Mundial do Comércio (OMC). Tem-se que analisar os produtos individualmente, para evitar maiores problemas. Todo mundo pensa logo na China, porque nós sabemos que é complicado negociar com eles, mas é o único caminho avalia Castro.

Efeito retardado

Para o vice-presidente da AEB, no caso específico da China, o Brasil poderia tentar negociar uma redução voluntária nas importações ou uma cota máxima para a compra de produtos chineses. A preocupação não é à toa: a balança comercial entre os dois países encerrou 2008 com um déficit de cerca de R$ 4 bilhões do lado brasileiro.

Castro lembra que o verdadeiro impacto da deterioração da economia mundial sobre a balança comercial brasileira ainda não pode ser medido, uma vez que as importações dependem, na maioria dos casos, de contratos mais longos, que estão em vigor desde antes do agravamento da crise.

Enquanto as exportações caíram cerca de 22% em janeiro, as importações caíram em torno de 8%. Isso porque os reflexos da taxa de câmbio ainda vão chegar aqui, a partir de abril destaca.

Santos, da Unicamp, acredita, no entanto, que os negócios externos têm espaço para adaptação por meio de investimentos públicos.

Em relação às exportações, há um grau de manobra maior, já que no setor privado há escassez de investimentos ou até cancelamento de novos diz Santos.