Queda histórica dos juros à vista

Ricardo Rego Monteiro e Gabriel Costa, Jornal do Brasil

RIO - A senha foi dada na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), no dia 21 de janeiro, e a ata divulgada nesta quinta-feira pelo Banco Central só confirma: a taxa básica de juro (Selic) vai cair mais depressa ao longo deste ano, provavelmente para o menor nível da história, de acordo com especialistas ouvidos pelo Jornal do Brasil. Pela primeira vez, projetam esses economistas, a Selic deverá alcançar o patamar de um dígito, provavelmente em dezembro, quando deverá fechar entre 9% e 9,75%.

A má notícia, no entanto, é que, embora tão esperada pelo mercado, a queda chegou tarde. A grande maioria dos especialistas adverte que, além de demorar a interpretar os sinais de gravidade da crise, o BC dispõe hoje de uma espécie de faca sem fio. A Selic, por si só justificam , perdeu o poder de fogo. Se quiser estimular a atividade econômica e destravar o crédito, o governo terá que auxiliar a autoridade monetária com outros instrumentos, principalmente fiscais.

A Selic não é determinante, neste momento, para expandir o crédito no país afirma Antonio Carlos Pôrto Gonçalves, professor da Fundação Getulio Vargas, que prevê uma redução da taxa básica a menos de 10% até dezembro.

Os cortes nos juros precisam vir acompanhados de uma política fiscal mais expansionista neste momento. A política monetária perdeu os dentes.

A economista-chefe do Banco ING, Zeina Latif, acredita que não há dúvidas de que o Banco Central dará continuidade à tendência de cortes nos juros, mas é comedida ao avaliar a intensidade da redução. Para Zeina, a Selic deve encerrar o ano ainda na casa dos dois dígitos.

Haverá um alívio no aperto monetário do ano passado, mas ainda temos uma inflação resistente, embora não gere preocupação significativa no momento avalia a economista, que projeta um patamar entre 11,25% e 10,50% para a taxa básica de juros até o fim de 2009.

Crítico do que classifica de lentidão na resposta do BC à crise, Antônio Corrêa de Lacerda, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), prevê uma queda da Selic para 9,75% no fim deste ano. Para 2010, prevê a continuidade do movimento de baixa.

O BC deveria ter iniciado o movimento de baixa já na reunião de dezembro lamenta Lacerda. Os sinais de agravamento da crise já estavam claros, na ocasião, para quem lida com a economia real. A autoridade monetária precisa agir mais preventivamente, e não reativamente.

O economista identifica, no entanto, um arsenal diversificado do governo para combater os efeitos da crise, que não só a Selic. Além da queima de parte do superávit primário, também poderá recorrer aos recursos do BNDES para reativar a economia.

Júlio Gomes de Almeida, professor da Unicamp e diretor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), é incisivo na análise do espaço que o BC tem disponível para reduzir os juros.

O ideal seria que chegássemos a um patamar de 7%, ou seja, praticamente a metade do que tínhamos até pouco tempo diz o economista, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

Mas acho difícil percorrermos esse caminho em 2009. A Selic deve encerrar o ano entre 9% e 10%, o que já é uma queda expressiva, de quase cinco pontos percentuais.