Adoção de duas taxas reduziria o custo dos juros

Natalia Pacheco, Jornal do Brasil

RIO - Embora recebida com ressalvas por economistas ouvidos nesta terça-feira pelo Jornal do Brasil, a proposta de adoção de duas taxas de juros pelo Banco Central do Brasil a exemplo do que ocorre em boa parte das economias desenvolvidas representaria um passo adiante no esforço de estimular o problemático crédito bancário do país. Sugerida em artigo publicado na edição de domingo do JB pelo ex-diretor do Banco Central e chefe do Departamento Econômico da Confederação Nacional de Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas, a proposta, de acordo com os especialistas, não destravaria, por si só, o dinheiro represado pelas instituições financeiras, mas contribuiria para reduzir os juros no Brasil, atualmente os maiores do mundo.

Pela proposta de Freitas, o governo deveria liberar a hoje regulada taxa Selic Over, que serve de referência para o movimento das reservas do BC.

A medida, justifica o ex-diretor do BC, faria com que a taxa, hoje administrada pela autoridade monetária para oscilar com a Selic, flutuasse de forma livre. Dessa forma, a taxa cairia, em um movimento que contribuiria para ampliar a oferta de crédito para o setor privado. Ao tornar menos atrativo os empréstimos para o governo, por meio dos títulos públicos, a medida aumentaria a atratividade das operações com o setor privado.

Professor de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Antonio Corrêa de Lacerda aprova a proposta. Concorda que uma menor intervenção do BC na Overnight forçaria os bancos a emprestarem mais dinheiro para as empresas. Mas o professor pondera que, pelas regras atuais, uma redução da Selic já em 1 ponto percentual proporcionaria, por si só, um aumento no volume de crédito bancário.

A redução de 1 ponto já vai surpreender o mercado e assim os bancos serão praticamente obrigados a liberar mais crédito. Além disso, se o BC deixar a Over Night ter maior liquidez, os bancos também vão emprestar mais.

Sócio da RC Consultores, o economista Paulo Rabello de Castro também aprova a proposta de Freitas.

Carlos e eu já temos insistimos nisso desde 2007 nas reuniões do Conselho de Planejamento Estratégico da Fecomércio-RJ.

Medo dos riscos

Mais cética, a economista-chefe do banco ING, Zeina Latif, pondera que tanto cortes na Selic quanto a criação de uma outra taxa de juros não são suficientes para destravar o crédito no país. Pelo menos neste primeiro semestre. Zeina justifica que o problema reside na aversão dos bancos ao risco.

A questão é muito maior refuta a economista do ING. Essas medidas vão ter uma influência marginal nesse momento. A crise forçou um ajuste de crédito.

Professor da Unicamp, Luiz Gonzaga Belluzzo diz não ter dúvidas de que a criação de mais uma taxa de juros ajudaria a ampliar o crédito e reduzir as taxas bancárias. Ressalva, porém, que o problema exige medidas mais heterodoxas, como a adoção de políticas de direcionamento dos créditos, através da intervenção do governo nos bancos.

Os bancos não emprestam porque temem não receber o dinheiro de volta. Então, cabe ao governo solucionar o problema. É o crédito quem cria o clima de otimismo econômico e, por isso, o governo tem de intervir nos bancos para forçá-los a emprestar dinheiro.

Outros, como o economista-chefe da Gradual Corretora, Pedro Paulo Silveira, identifica na medida o potencial para aumentar a volatilidade do mercado. Uma intervenção na Selic Over, segundo Silveira, poderia até mesmo reduzir ainda mais a oferta de crédito no mercado, devido à instabilidade que poderia gerar.

Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade.
Ao continuar navegando, você concorda com estas condições.
Saiba mais