Mercado árabe vira porto seguro para brasileiros

Sônia Salgueiro, Jornal do Brasil

DUBAI - Ao mesmo tempo em que as principais economias do mundo são contaminadas pela crise financeira internacional, o mercado árabe surge como uma espécie de porto seguro para os exportadores brasileiros.

A crise é globalizada e terá reflexos em todo o mundo, mas os países árabes têm muitas reservas, muita disponibilidade de recursos, o que aumenta as chances de eles passarem pela crise com mais facilidade afirma Antônio Sarkis Junior, presidente da Câmara de Comércio Árabe Brasileira (CCAB), representante da Liga dos Estados Árabes, que reúne 22 países independentes que têm o árabe como idioma oficial.

Segundo dados disponibilizados pela CCAB, entre janeiro e novembro as exportações para o mundo árabe, de US$ 8,91 bilhões, foram 39,6% superiores às do mesmo intervalo de 2007. Já as compras externas, 80% delas baseadas no petróleo, totalizaram US$ 9,96 bilhões, valor 75,4% superior ao do mesmo período do ano passado.

Crescimento

É visível, no curto prazo, a queda de preço do barril do petróleo na balança entre os dois mercados. Em novembro as importações dos países árabes retrocederam 16,8% frente a igual mês de 2007, quando no acumulado até novembro a expansão superava os 75%. Já as exportações escaparam praticamente ilesas da retração internacional. Frente a novembro de 2007, as vendas externas para esse mercado saltaram 51,5%, com destaque para as carnes (aumento de 46%), minérios (+160%), máquinas rodoviárias (+47%) e milho (+400%).

Evaldo Alves, professor de Economia Internacional da Escola de Administração da Fundação Getúlio Vargas (FGV), diz que crises como a atual são normais em economias capitalistas a cada 40 ou 50 anos.

Alguns mercados são atingidos de modo mais contundente e outros de forma mais tênue, mas ninguém passa incólume comenta. O Oriente Médio não é um grande parceiro do Brasil, mas vem crescendo muito, e este é um bom momento para ampliar negócios com uma região que está se expandindo e que poderia ter maior participação na nossa pauta de exportação diz o professor da FGV.

A combinação agronegócio brasileiro com países árabes já deu certo avalia Sarkis, da CCAB, ao dizer que o país já é um tradicional fornecedor àquele mercado de carnes bovina e de frango. No ranking de dez maiores clientes da indústria de carne bovina, três (Argélia, Israel e Arábia Saudita) são árabes, segundo estatísticas do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). De acordo com a mesma fonte, a Arábia Saudita é o segundo cliente do setor de carne de frango, depois do Japão. Emirados Árabes Unidos e Kwait também figuram na lista de grandes compradores do setor.

Estudo conduzido pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) em 12 países da região mostra que a indústria de alimentos tem grande potencial de crescimento no mercado árabe. O levantamento constatou que os mercados selecionados absorveram 4% (US$ 29,8 bilhões) dos alimentos e bebidas exportados pelo mundo em 2007. Desse total, US$ 4,7 bilhões foram comprados do Brasil. O estudo detectou boas oportunidades de negócios no segmentos de sucos (laranja, abacaxi, maçã, bebidas mistas, etc.), café, frutas (sobretudo maçãs e castanha de caju), produtos lácteos, chás e balas e confeitos.

Alessandro Teixeira, presidente da Apex, afirma que estudos como esse só são viáveis hoje em dia porque a entidade conta com um centro de negócios na região.

Transformamos o antigo centro de distribuição aberto em 2006 em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, em centro de negócios justifica. O local, que até pouco tempo funcionava como um depósito, hoje busca negócios, atua com inteligência de mercado e faz contatos comerciais. Só na área de inteligência, fizemos mais de 15 estudos para empresas no decorrer de 2008.

O presidente da Apex relata que a entidade tem aumentado as ações no mercado árabe e que a intenção é fortalecer a presença na região em 2009. Entre as ações previstas para o próximo ano, estão missões comerciais para o Irã e Egito, participação em uma feira no Egito e pelo menos seis diferentes ações nos Emirados Árabes Unidos.