Crise mundial: indústria confirma contágio do Brasil

Sabrina Lorenzi, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - Um mês depois de a crise financeira começar a assombrar o mundo, o número de paralisações voluntárias nas fábricas brasileiras quase dobrou. O resultado foi uma redução de 1,7% da produção entre setembro e outubro, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A escassez de crédito desacelerou todas as categorias da indústria. E mais da metade dos segmentos cortaram produção.

Embora o IBGE e mesmo o ministro da Fazenda, Guido Mantega evite atribuir o resultado da indústria em outubro ao contágio da crise mundial, especialistas ouvidos pelo JB confirmam que o indicador dá os primeiros sinais de que o Brasil começa a sofrer os efeitos da desaceleração global.

Não sabemos se o que aconteceu em outubro será padrão daqui para frente, porque foi o primeiro mês depois da crise. Foi o mês do susto, de adaptação das empresas ao novo cenário afirmou a coordenadora da Pesquisa Industrial Mensal do IBGE, Isabella Nunes.

Os setores que reduziram a produção foram justamente os que vinham crescendo muito.

Outubro do susto

A indústria petroquímica foi a que mais se retraiu, com corte de 11,6% entre setembro e outubro. Se o dólar mais caro atrapalha as refinadoras com ajustes nos preços dos insumos, por outro a queda livre da cotação do barril de petróleo tende a neutralizar a alta de custos. Para o IBGE, a principal dificuldade das empresas é o cenário de incertezas quanto à demanda.

Ao todo, 15 dos 27 ramos pesquisados cortaram produção, entre os quais o de refino de petróleo e produção de álcool (-9,0%). O segmento de máquinas e equipamentos que interrompeu seqüência de quatro meses de taxas positivas e recuou 5,4%. Como já era de se esperar, a indústria de veículos automotores (-1,4%) também cortou, com férias coletivas em várias fábricas.

O IBGE apurou que o número de paralisações e folgas aos funcionários da indústria disparou em outubro deste ano em relação aos anos anteriores. Em outubro de 2007, 68 fábricas paralisaram as atividades. No outubro do susto, o número saltou para 118. O IBGE considerou interrupções que afetaram pelo menos 10% da produção.

Na metalurgia, o total de paralisações subiu de dois para 11. São as siderúrgicas pisando no freio por causa do consumo de aço ladeira abaixo, principalmente na China.

Responsável por 7% de toda a produção da indústria, o segmento químico elevou de 11 para 26 o total de paralisações nas fábricas, com folgas aos funcionários. As interrupções na indústria de alimentos cresceram de 20 para 31 com a crise. Na de celulose, de cinco para oito. Nas demais atividades investigadas pelo IBGE, houve 41 paralisações, ante 30 em outubro do ano passado.

As paralisações foram muito concentradas na indústria de intermediários, como celulose, autopeças, química, refino, mineração e siderurgia completou.

De acordo com o IBGE, a desvalorização de produtos no mercado internacional por causa da demanda fria atingiu em cheio a produção de insumos para a gricultura, como herbicidas, adubos e fertilizantes.

Por outro lado, 12 ramos da indústria aumentaram a produção entre setembro e outubro, com taxas mornas. Alimentos (0,7%) e outros equipamentos de transportes (2,0%) exerceram as influências positivas mais relevantes, segundo o IBGE.

A redução no ritmo produtivo alcançou todas as categorias de uso. A queda mais acentuada foi observada em bens de consumo duráveis (-4,7%), segmento mais suscetível ao crédito, com influência forte das montadoras. Ao contrário dos carros de passeio, a produção de ônibus e caminhões não foi afetada pela crise. A cadeia automotiva responde por 10% da indústria brasileira.

Na comparação com outubro de 2007, a indústria assinalou expansão de 0,8% a menor taxa desde dezembro de 2006 (0,3%), mesmo contando com um dia útil a mais em relação a outubro de 2007. De janeiro a outubro, a indústria cresceu 5,8%, apoiada no crescimento de 21 atividades, com veículos (16,0%) liderando a expansão por causa dos recordes de venda antes da crise.