Mina de urânio pode ter contaminado água na BA

SÃO PAULO, 16 de outubro de 2008 - O Greenpeace encontrou contaminação radioativa em amostras de água para consumo na área de influência direta da mineração de urânio das Indústrias nucleares do Brasil (INB), em Caetité, a 750 km de Salvador (BA). Com oito meses de investigação, a denúncia, que foi encaminhada hoje ao Ministério Público, faz parte do relatório do Ciclo do Perigo - Impactos da Produção de Combustível Nuclear no Brasil.

´O caso mostra que os impactos e riscos da energia nuclear começam na origem do combustível que alimenta as usinas de Angra dos Reis e o Programa Nuclear Brasileiro´, diz a coordenadora da campanha de energia nuclear do Greenpeace, Rebeca Lerer.

De acordo com a entidade, os habitantes de Caetité não tem acesso aos dados de qualidade da água. Os moradores da região utilizam o recurso tanto para consumo próprio como para hidratação de gado e irrigação de plantações. Amostras da água foram encaminhadas a um laboratório do Reino Unido para testes. Pelo menos duas apresentaram contaminação por urânio muito acima do permitido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama).

Segundo o padre Osvaldino Alves Barbosa, sacerdote do município de 47 mil habitantes do interior baiano, desde 1990 foram feitas promessas de melhorias de estrutura na cidade, mas até hoje, nada foi feito. ´No ano passado, foram extraídas 300 toneladas de urânio, com arrecadação de R$ 70 milhões e nada foi repassado para a comunidade. Não há nem energia elétrica´, diz Osvaldino. ´Os sentimentos das populações dos municípios de Caetité e de Lagoa Real são de silêncio e indiferença, talvez pelo resultado de uma imposição da INB.´

A mineradora está em uma área rural, localizada a 40 km do centro da cidade. ´A saúde e a qualidade da água são de responsabilidade da INB em uma área de 20 km ao redor do empreendimento´, diz Rebeca Lerer. Ela conta que a incidência de câncer na cidade está aumentando. ´Os problemas vão desde a mineração até o descarte do lixo, que não tem solução em nenhum lugar do mundo.´

Para atender a demanda de combustível com a construção de Angra 3, a capacidade produtiva anual da INB de passar de 400 para 800 toneladas de yellow cake (concentrado de urânio) e, também, iniciar a exploração de urânio na mida de Santa Quitéria, no Ceará. ´A medida que o programa nuclear cresce, os impactos também aumentam. O governo precisa repensar as instalações nucleares devido aos seus impactos´, diz Rebeca Lerer.

´Enquanto os verdadeiros impactos da mineração de urânio em Caetité permanecerem desconhecidos, o governo Lula adota políticas de incentivo à geração nuclear do Brasil, ignorando os altos riscos e custos sócio-ambientais dessa tecnologia.´

(Sérgio Toledo - InvestNews)