Para diretor do FMI, investimentos diretos financiam o déficit

José Aparecido Miguel e Rodrigo de Almeida, Jornal do Brasil

RIO - Como diretor executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, o professor e economista Paulo Nogueira Batista Junior representa os interesses do Brasil e de mais oito países naquele que já foi a Geni, um dos mais detestados organismos globais. A tarefa é complexa. Apesar dos avanços, como as reformas destinadas a aumentar a participação de países em desenvolvimento nas decisões do Fundo, o FMI é uma instituição pesada e lenta nas mudanças.

Por dever de ofício e pela já extensa galeria de estudos sobre o assunto, Paulo Nogueira mantém um olho lá e outro cá. E, na entrevista a seguir, concedida de Washington, ele alerta: é preocupante a velocidade da deterioração da balança comercial e de outros componentes da situação externa brasileira. O economista descarta, no entanto, uma crise em formação no horizonte. Na conversa, fala ainda do gigantismo do sistema financeiro, da onda de elogios ao Brasil que dá até para desconfiar , segundo ele e, para não perder o hábito, faz citações ao autor preferido: Nelson Rodrigues.

O uso de metas de inflação, como faz o Brasil, favorece desenvolvimento do país?

Depende das circunstâncias do país e da forma, mais ou menos flexível, como o modelo é aplicado. Para uma economia com longa experiência inflacionária, o regime de metas para a inflação pode ser uma alternativa melhor do que adotar metas monetárias ou a ancoragem cambial. Mas o melhor mesmo é não ter regras fixas. Com a instabilidade da economia nacional e internacional, um regime discricionário (sem regras) é, em princípio, preferível. Se o país não se sentir em condições de operar com um regime discricionário, o regime de metas para a inflação talvez seja o menor dos males. Convém, entretanto, aplicá-lo com flexibilidade. Por exemplo: não fixar metas muito ambiciosas de inflação, definir um intervalo de tolerância amplo em torno do centro da meta, não buscar o centro da meta a qualquer custo. O Brasil tem mantido algumas dessas flexibilidades desde que adotou o regime de metas para a inflação em 1999.

Além do tema inflação, que outros indicadores devem preocupar as autoridades econômicas do país? Por exemplo, a indústria tem primeiro déficit comercial em seis anos, a previsão de déficit externo já chega a US$ 21 bilhões; e o total de endividados do país cresce 47% em dois anos.

As autoridades econômicas devem se preocupar com o crescimento, as contas externas, as contas públicas, os indicadores sociais, a distribuição da renda, a autonomia nacional, entre outros temas. Mas eu seria mais específico: o próprio Banco Central não pode concentrar-se totalmente na inflação e deve levar em conta os efeitos da política monetária sobre o crescimento, o emprego, a taxa de câmbio e as finanças do governo. Uma política muito agressiva de aumento dos juros derruba a inflação, mas derruba junto o crescimento, o investimento, a taxa de câmbio e a competitividade internacional da economia. E aumenta o déficit público, via efeito sobre o custo da dívida governamental.

Há risco de vulnerabilidade externa?

Sim, há esse risco.

Em que se difere da vulnerabilidade externa em tempos de Fernando Henrique Cardoso?

Preocupa a velocidade da deterioração da balança comercial e de outros componentes da conta corrente do balanço de pagamentos. Mas não há risco de crise no horizonte. O déficit em conta corrente ainda não é muito grande (está em torno de 1,1% do PIB nos 12 meses até maio). A entrada de investimentos diretos, um tipo mais estável de capital, financia esse déficit com folga. E as reservas internacionais estão em torno de US$ 200 bilhões. A vulnerabilidade no tempo do governo Fernando Henrique Cardoso era maior. Tínhamos um regime cambial intrinsecamente vulnerável, o modelo de bandas cambiais. A sobrevalorização do real persistiu por mais de quatro anos. As reservas internacionais não eram tão altas, chegamos a perder reservas de maneira perigosa em alguns momentos. O déficit em conta corrente cresceu de forma alarmante até 1998 e boa parte desse déficit foi financiado com capitais voláteis e de curto prazo. Ou com recursos da privatização , entre aspas, isto é, com a venda de empresas nacionais públicas e privadas a investidores estrangeiros. Em alguns casos, a compra era feita por estatais estrangeiras daí as aspas na palavra privatização. Chamavam de privatização , mas era desnacionalização pura e simples.

É notável a mudança de foco do Fundo Monetário Internacional em relação à política econômica mundial. Qual o seu novo papel? Como isso favorece ou prejudica o país?

Não sei se é tão notável assim. O FMI é uma instituição pesada, que muda lentamente. O novo diretor-gerente, Dominique Strauss-Kahm, está fazendo um esforço para introduzir mudanças. A cadeira do Brasil na Diretoria tem apoiado esse esforço e procurado acelerar as reformas. Creio que temos sido bastante bem-sucedidos, mas foram os primeiros passos apenas. A reforma da estrutura de quotas e voz é um exemplo. Começou a aumentar a participação dos países em desenvolvimento no FMI. O Brasil foi um dos principais beneficiários em termos de aumento quota e de poder de voto. Vamos ver até que ponto conseguimos mudar a forma de atuar do Fundo, discutindo e revendo os seus diagnósticos, as suas recomendações de política econômica e as suas modalidades de financiamento.

Há quem diga que os governos perderam força e que a política econômica do mundo, na atualidade, é exercida pelo sistema financeiro crítica persistente no Brasil. Qual sua visão sobre isso?

Há um elemento de verdade nessa visão. O poder do sistema financeiro se agigantou. Há uma hipertrofia da esfera financeira na economia internacional. Mas os governos continuam tendo muitas possibilidades de atuação e de defesa das economias nacionais. O segredo (de Polichinelo) é depender o menos possível do sistema financeiro internacional e, dentro do país, estabelecer contrapesos institucionais e políticos ao poder dos bancos.

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