Copom pode estar dividio também?

SÃO PAULO, 3 de junho de 2008 - Tudo indica que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) vai manter o ritmo de aperto da taxa de juro básico (Selic) na reunião que ocorre entre hoje e amanhã, mas qual será a magnitude e se haverá unanimidade é a dúvida que circula no mercado. A expectativa majoritária dos analistas é que o colegiado eleve de 11,75% para 12,25% a Selic, mas a quem aposte em uma alta de 0,75 ponto percentual. "A elevação da Selic é fato. No entanto, ainda restam dúvidas sobre o grau do aperto monetário", afirma o professor da Trevisan Escola de Negócios e Consultor do Núcleo de Negócios Internacionais da Trevisan Consultoria, Pedro Raffy Vartanian, que aposta em um ajuste de 0,5 ponto.

Segundo ele, a deteriorização do cenário inflacionário pode aumentar a discussão dos membros do Copom em torno de uma elevação maior. A última sondagem do BC, contida no Boletim Focus de 30 de maio, mostra que o mercado financeiro já projeta uma inflação acima do centro da meta estipulada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) em 4,5% para este ano. A perspectiva de que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) termine 2008 próximo de 5,4% deve ter grande peso na decisão do colegiado.

Para o economista-chefe da Concórdia, Elson Teles, o Copom pode, por ora, manter o ritmo de aperto monetário e elevar Selic para 12,25% ao ano. No entanto, apesar de preferir manter o ritmo de alta na taxa básica de juros, o Copom deverá adotar um discurso mais enérgico, sinalizando ao mercado que a piora no cenário prospectivo para a inflação pode requerer um ajuste total Selic superior ao imaginado inicialmente. "Essa pode ser a forma de o Copom adequar a estratégia de política monetária às novas circunstâncias, marcadas pela piora no perfil de riscos que resultaram em impactos negativos no cenário prospectivo básico traçado para a inflação até então", disse.

Teles avalia que outra alternativa para calibrar a postura de política monetária à piora da inflação seria por meio de um ajuste de 0,75 ponto, como sugerido por alguns analistas. "Mas, os últimos discursos de membros do Comitê sugerem preferência pela primeira opção. Ao manter o ritmo de 0,5 ponto o Copom também vai procurar transmitir aos mercados que a situação atual recomenda ´absoluta serenidade´, pois apesar de preocupante não pode induzir ao pânico. Para o BC, a piora no cenário inflacionário não se configurou como uma grande surpresa para a instituição, mas apenas a confirmação de suas preocupações, haja vista que, desde a reunião de abril, o Copom já admitia que os riscos para a concretização de um cenário inflacionário benigno eram relevantes", ressalta.

De qualquer forma, o BC já deve estar de olho no controle da inflação e na meta estipulada para 2009, já que a partir de agora os ajustes realizados terão efeitos futuros. "A magnitude total do ajuste a ser implementado é que seria a informação mais importante para influenciar as taxas de juros mais longas, que são as mais relevantes do ponto de vista da transmissão da política monetária sobre a atividade econômica e a inflação", analisa Teles.

(Vanessa Stecanella - InvestNews)