Lula faz Chávez reduzir tom de críticas ao etanol

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BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu na terça-feira que o venezuelano Hugo Chávez baixasse o tom de suas críticas ao programa brasileiro de álcool combustível, saindo como vitorioso de uma cúpula sul-americana que debateu a integração energética na região. Chávez e o líder cubano Fidel Castro criticaram duramente a aliança de Lula com o governo norte-americano para promover o uso dos biocombustíveis.

Antes da cúpula energética, Chávez e Fidel advertiram que a produção de álcool de milho ou de cana de açúcar poderia provocar uma escassez de alimentos no mundo.

Mas no papel de anfitrião, Chávez deixou de lado os ataques, e Lula rebateu os argumentos do venezuelano.

- Nós não estamos contra os biocombustíveis, porque esteve se maquinando na imprensa internacional que vínhamos aqui para confrontar e não é nada disso - afirmou Chávez. - Nós, na verdade, queremos importar etanol do Brasil - acrescentou o líder da Venezuela, que vende aos Estados Unidos a maior parte da enorme quantidade de petróleo que produz.

Já Lula afirmou que o biocombustível na verdade é uma saída para os pobres do mundo.

- Obviamente não existe nenhuma possibilidade de competição entre a produção de alimentos e a produção de biocombustíveis.

Diante das críticas de Chávez e de Fidel, o Brasil, maior produtor mundial de etanol à base de cana, se limitou a defender seu programa e seus acordos com os Estados Unidos para promover mundialmente o biocombustível.

Ao mesmo tempo, o Brasil rejeitou qualquer confronto direto com a Venezuela.

- Não há nenhum interesse em criar controvérsias com o nosso 'hermano' Huguito - disse à Reuters um sorridente funcionário do Palácio do Planalto.

Ao invés de contestar os ataques verbais de Chávez, Brasília privilegia seus volumosos negócios com Caracas, que geraram um saldo positivo de quase 3 bilhões de dólares em 2006, num intercâmbio bilateral 51 por cento maior em relação a 2005.

As operações na Venezuela de empresas brasileiras como a Odebrecht e a Sadia tiveram um crescimento exponencial nos últimos três anos.

- Chávez não cria problemas práticos, fica na retórica - avaliou o funcionário do Planalto.

A política de 'ouvidos moucos' às críticas de Chávez é seguida pelo chanceler Celso Amorim e pelo assessor de Relações Internacionais de Lula, Marco Aurélio Garcia.

Seus principais operadores são o subsecretário para a América do Sul do Itamaraty, Jorge Taunay, o responsável pelo Departamento de América do Sul, Ênio Cordeiro, e o embaixador brasileiro em Caracas, João Carlos de Souza Gomes.

Já a Argentina ficou à parte da polêmica sobre o álcool envolvendo Brasil, Venezuela e Cuba.

Segundo o especialista Jorge Lapeña, ex-secretário de Energia da Argentina e presidente da ONG Instituto General Mosconi, isso acontece porque o país enfrenta um 'grave problema' energético.

- O país tem um grande crescimento de demanda e não tem um bom crescimento de oferta. A produção petroleira está estancada e as reservas de gás decrescem. Há um problema não resolvido que põe a Argentina em posição de requerer apoios internacionais - afirmou.