Ao elevar Selic em 1,50%, Copom passa recibo de seus erros na alta atrasada e tímida

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Marcello Casal JrAgência Brasil
Credit...Marcello Casal JrAgência Brasil

E afinal, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom), diante do naufrágio da política fiscal e do ímpeto gastador do governo, na tentativa de reeleger o presidente Jair Bolsonaro, desgastado pela escalada da inflação e pelo fracasso na gestão da Covid-19, resolveu agir e aumentou a taxa Selic bem acima dos movimentos anteriores. Em vez de 1 ponto percentual de agosto e setembro, aumentou 1,50 ponto percentual para 7,75% e indicou novo aumento de igual magnitude - ou mais, se novos fatos recomendarem - em dezembro, quando a taxa básica de juros da economia atingiria 9,25% ao ano.

Desde março, no entanto, o Copom perdeu, a cada 45 dias, intervalo entre as reuniões do Comitê, várias oportunidades de se antecipar aos fatos e à trajetória de alta da inflação, alimentada pela alta do dólar (ou melhor, pela desvalorização do real em função das sucessivas decepcões dos agentes do mercado. Podia ter elevado a Selic em 1 ponto percentual em março, maio e junho, dando um choque na inflação e trasendo o dólar abaixo de R$ 5,00.

Parece que só o Banco Central foi conservador até o último momento e confiava na capacidade do ministro da Economia, Paulo Guedes, de manter um mínimo de austeridade fiscal, num governo desgastado e sem compromisso com a austeridade, em nome de um projeto de reeleição.O resultado foi que o próprio ministro Guedes, após ceder no compromisso de manutenção do teto de gastos, para turbinar projetos sociais e eleitorais em 2022, tenha reclamado que o Banco Central ficava correndo atrás do rabo da inflação".

Agora é tarde, Inês, ou melhor, as metas de inflação estão mortas em 2021 (3,75%, com teto máximo de 5,25% e em 2022, meta de 3,50%, com teto máximo de 5%. O Itaú acredita que o ciclo de alta da Selic se encerre em 11,2% em março de 2022. Podia ter sido abreviado.

Vejam o comunicado do Copom:
Em sua 242ª reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic para 7,75% a.a.

A atualização do cenário básico do Copom pode ser descrita com as seguintes observações:

No cenário externo, o ambiente tem se tornado menos favorável e a reação dos bancos centrais frente à maior persistência da inflação deve levar a um cenário mais desafiador para economias emergentes;
Em relação à atividade econômica brasileira, indicadores divulgados desde a última reunião mostram uma evolução ligeiramente abaixo da esperada;

A inflação ao consumidor continua elevada. A alta dos preços veio acima do esperado, liderada pelos componentes mais voláteis, mas observam-se também pressões adicionais nos itens associados à inflação subjacente;

As diversas medidas de inflação subjacente apresentam-se acima do intervalo compatível com o cumprimento da meta para a inflação;

As expectativas de inflação para 2021, 2022 e 2023 apuradas pela pesquisa Focus encontram-se em torno de 9,0%, 4,4% e 3,3%, respectivamente; e

No cenário básico, com trajetória para a taxa de juros extraída da pesquisa Focus e taxa de câmbio partindo de USD/BRL 5,60*, e evoluindo segundo a paridade do poder de compra (PPC), as projeções de inflação do Copom situam-se em torno de 9,5% para 2021, 4,1% para 2022 e 3,1% para 2023. Esse cenário supõe trajetória de juros que se eleva para 8,75% a.a. neste ano e para 9,75% a.a. durante 2022, terminando o ano em 9,50%, e reduz-se para 7,00% a.a. em 2023. Nesse cenário, as projeções para a inflação de preços administrados são de 17,1% para 2021, 5,2% para 2022 e 5,1% para 2023. Adota-se a hipótese de bandeiras tarifárias "escassez hídrica" em dezembro de 2021 e "vermelha patamar 2" em dezembro de 2022 e dezembro de 2023.

O Comitê ressalta que, em seu cenário básico para a inflação, permanecem fatores de risco em ambas as direções.

Por um lado, uma possível reversão, ainda que parcial, do aumento recente nos preços das commodities internacionais em moeda local produziria trajetória de inflação abaixo do cenário básico.

Por outro lado, novos prolongamentos das políticas fiscais de resposta à pandemia que pressionem a demanda agregada e piorem a trajetória fiscal podem elevar os prêmios de risco do país.

Apesar do desempenho mais positivo das contas públicas, o Comitê avalia que recentes questionamentos em relação ao arcabouço fiscal elevaram o risco de desancoragem das expectativas de inflação, aumentando a assimetria altista no balanço de riscos. Isso implica maior probabilidade de trajetórias para inflação acima do projetado de acordo com o cenário básico.

Considerando o cenário básico, o balanço de riscos e o amplo conjunto de informações disponíveis, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa básica de juros em 1,50 ponto percentual, para 7,75% a.a. O Comitê entende que essa decisão reflete seu cenário básico e um balanço de riscos de variância maior do que a usual para a inflação prospectiva e é compatível com a convergência da inflação para as metas no horizonte relevante, que inclui os anos-calendário de 2022 e 2023. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego.

O Copom considera que, diante da deterioração no balanço de riscos e do aumento de suas projeções, esse ritmo de ajuste é o mais adequado para garantir a convergência da inflação para as metas no horizonte relevante. Neste momento, o cenário básico e o balanço de riscos do Copom indicam ser apropriado que o ciclo de aperto monetário avance ainda mais no território contracionista.

Para a próxima reunião, o Comitê antevê outro ajuste da mesma magnitude. O Copom enfatiza que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados para assegurar o cumprimento da meta de inflação e dependerão da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação para o horizonte relevante da política monetária.

Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Roberto Oliveira Campos Neto (presidente), Bruno Serra Fernandes, Carolina de Assis Barros, Fabio Kanczuk, Fernanda Magalhães Rumenos Guardado, João Manoel Pinho de Mello, Maurício Costa de Moura, Otávio Ribeiro Damaso e Paulo Sérgio Neves de Souza.

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