Economista aponta caminhos e afirma: 'Não há como fugir da prorrogação do auxílio emergencial'

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Foto: Folhapress/Eduardo Matysiak
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Desde que foi alçado ao posto de "superministro" da Economia, Paulo Guedes, o "posto Ipiranga" do presidente da República, fez uma série de promessas ao investidores, banqueiros e empresários brasileiros e estrangeiros. Entre elas, a redução da dívida pública do país.

No ano passado, quando o Brasil foi atingido pela covid-19, ele reconheceu a inevitabilidade das consequências de uma pandemia mundial para o país. O resultado foi que a Dívida Pública Federal fechou 2020 em R$ 5,01 trilhões, 17,9% maior do que no ano passado.

Quarta-feira (10), em meio ao debate sobre a prorrogação do auxílio emergencial, Paulo Guedes disse que os gastos com o enfrentamento à pandemia do novo coronavírus não podem ser empurrados para as gerações futuras. Ele defendeu que as discussões sobre a retomada do auxílio emergencial sejam acompanhadas da responsabilidade fiscal, com a busca de uma fonte de recursos para financiar a recriação do benefício.

Para a economista da Uerj, a professora Maria Beatriz Albuquerque, ouvida pela agência de notícias Sputnik Brasil, não há jeito de fugir do auxílio emergencial. "Todos os países estão fazendo enquanto a pandemia durar. E o Brasil tem tentado fugir disso, ou quando o faz, faz de maneira desorganizada".

A volta do auxílio emergencial
Ela criticou a política de redistribuição de renda do governo Bolsonaro no ano passado, porém, reconheceu a importância da medida.

"O último auxílio muita gente não precisava, e recebeu. Houve fraude, todos esses problemas. Mas ele incentivou, muito mais do que qualquer outra medida, a retomada da economia. Quando ele acabou, o varejo, principalmente dos supermercados, caiu muitíssimo", afirmou.

"A pandemia tem um impacto claro sobre os mais pobres. Então o mundo inteiro está fazendo isso, e o Brasil não tem como fugir disso. Agora, você pode cortar gastos supérfluos. Temos um monte de gastos supérfluos que podem ser enxugados no orçamento", sentenciou.

Ainda abordando a questão dos gastos públicos, a economista disse que:

"Agora, gastos de saúde, e gastos com questões sociais no momento da pandemia, são insustentáveis. E dizer que as gerações futuras não podem pagar, ora, toda dívida pública será paga pelas gerações atuais e futuras".

Em seguida, ela emendou seu argumento com uma pergunta retórica. "O que estão fazendo os outros países? Eles estão renegociando a dívida. A Europa está fazendo isso. Outros países estão fazendo igual. E os EUA acabam de lançar um grande programa de incentivo à economia e de combate às causas da pandemia".

O orçamento de Paulo Guedes
Até onde se sabe, o auxílio pode ser prorrogado por um tempo entre três e quatro meses. Conforme o ministro Paulo Guedes disse quarta (10), o dinheiro para bancar uma nova rodada virá do próprio Orçamento deste ano, em vez de ser financiado pelo aumento da dívida pública.

Confrontada com esta declaração, a economista entende que "o ministro Guedes, desde a primeira vez, tentou fugir da ideia que estamos vivendo uma crise".

Segundo ela, "claro que temos uma situação fiscal complicadíssima e é muito difícil que os parlamentares abram mão das emendas parlamentares, que os governos abram mão dos cargos comissionados, ou dos gastos em coisas supérfluas, como determinaram as compras presidenciais, que demonstram que há gastos que podem ser evitados. Quer dizer, há muitos jeitos de controlar gastos públicos", sentenciou.

CPMF para bancar o auxílio?
Paulo Guedes sempre se revelou contrário à ideia da volta de uma possível CPMF. Maria Beatriz partilha deste sentimento, e fez ressalvas quanto à possível volta deste imposto.

"É imprescindível que se continue fazendo política ativa durante a pandemia. O grande problema é dizer que não vai aumentar impostos, e ao mesmo tempo dizer que vai fazer auxílio. Botar a CPMF, ela tem impacto sobre os investidores também, porque aumenta o custo dos investimentos, então não é um imposto neutro. Vai impactar as decisões de investimento", afirmou.

Questionada sobre uma possível segunda solução, ela disse que "o melhor é procurar fontes de financiamento que tenham menos impactos redistributivos negativos e que também não desestimulem os investimentos", afirmou.

Ela entende que não é uma tarefa simples, "mas essa coisa de dizer que as gerações futuras não podem pagar, todos nós vamos pagar. Isso é correr do problema".

A economista ainda apontou outra variante desta equação. "Outro fato mais importante ainda é que já estamos na metade de fevereiro e não há orçamento. Sem orçamento, como fazer as despesas dos próximos meses? Então a gente tem um problema do déficit de gastos, e a pandemia está longe de estar controlada. Os problemas do ano passado continuam existindo", alertou.

O auxílio e a covid-19
Maria Beatriz criticou o modo como o ministro da economia vem abordando a questão da prorrogação do auxílio emergencial. "Tem que ter seriedade para enfrentar os problemas não com discursos vazios, mas com eficácia e preservando a situação social e econômica, e principalmente de saúde".

"O Brasil é um dos países mais atrasados em disponibilidade de vacinas. Isso é o principal freio para o andamento da nossa economia. Não adianta dizer que vai gerar emprego, que vai vir investimento, que basta dar autonomia ao Banco Central, isso são alguns indicativos quando você está bem, e não é o nosso caso", ela disse.

"Falta fazer muita coisa para se ter uma retomada da economia. Esse negócio de retomada em V é uma intenção, uma vontade, uma esperança, mas nada disso está ocorrendo de fato", concluiu. (com agência Sputnik Brasil)