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Economia

Com baixas contábeis, Petrobras perde R$ 48,5 bilhões no 1º tri

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

A queda abruta do preço do barril do petróleo tipo Brent a partir do mês de março, quando chegou a ser negociado abaixo de US$ 30, contra US$ 65 no 4º trimestre de 2019 (níveis antes projetados até o fim do ano) e a escalada do dólar levaram a Petrobras a promover pesada baixa (“impairment”) de R$ 65,3 bilhões no 1º trimestre. Com isso, a estatal fechou o mês de março com um prejuízo contábil recorrente de R$ 48,523 bilhões, queda de 695% ante o 4º trimestre de 2019, quando a empresa teve lucro líquido de R$ 8,153 bilhões, segundo o resultado divulgado na noite desta quinta-feira, após o fechamento dos mercados.

No ano passado a Petrobras teve lucro líquido recorde de R$ 40,1 bilhões. O maior prejuízo trimestral anterior da Petrobras foi registrado no 4º trimestre de 2015, de R$ 36,9 bilhões, quando a companhia decidiu promover baixas contábeis de diversos projetos de refinaria (Abreu e Lima e Comperj, além de investimentos em petroquímica, usinas de álcool, fábricas de fertilizantes e campos de exploração, além de computar o rombo de R$ 6,2 bilhões descoberto pela operação Lava-jato, em 2014.

Na mensagem aos acionistas, o presidente Roberto Castello Branco destaca que “a recessão global não chegou a impactar significativamente o desempenho da companhia no 1T20, devendo fazê-lo nos trimestres seguintes. Por exemplo, o fluxo de caixa livre foi de US$ 5,9 bilhões, muito superior ao do mesmo trimestre de 2019, de US$ 3,1 bilhões. Entretanto, o resultado contábil do 1T20 foi consideravelmente afetado pela baixa de ativos no valor de US$ 13,4 bilhões (R$ 65,3 bilhões a valores de 31 de março) derivada da realização de teste de “impairment”, implicando em prejuízo contábil não recorrente de US$ 9,7 bilhões, sem quaisquer efeitos sobre o fluxo de caixa da Petrobras.

Castello Branco disse que a companhia agiu assim dentro “do nosso forte compromisso com a transparência”, por isso “decidimos aplicar o teste o mais rapidamente possível contemplando um novo cenário de preços e taxas de câmbio”. Ele disse ainda que essa elevada baixa, “trata-se de situação bastante distinta da vivenciada em 2014-2015 quando a companhia enfrentava duas crises, uma financeira e outra moral, e a baixa de ativos refletia a vulnerabilidade da companhia”.

Melhora nos custos e no faturamento

“Com exceção dos testes de “impairment”, motivados por questões externas, e das despesas com vendas, que subiram pelo aumento do volume exportado e por efeitos cambiais, todos os demais itens que compõem as despesas operacionais apresentaram melhora. As despesas de G&A caíram 10,6% devido a menores despesas com serviços técnicos e de consultoria.

“Os gastos exploratórios caíram 75%, decorrentes de maiores gastos com poços subcomerciais e geologia e geofísica no trimestre passado. As despesas tributárias foram 60,6% menores devido às adesões a programas tributários, também no 4T19. Outras despesas operacionais reduziram em 15,5%, mesmo com as perdas de R$ 446 milhões registradas com baixas de ativos/desinvestimentos no 1T20, ante ganhos de R$ 2,6 bilhões no trimestre passado.

“Esse resultado foi possível principalmente 9 por: (i) ganhos com hedge sobre transações de trading de R$ 1 bilhão, contra uma perda de R$ 230 milhões no 4T19 e; (ii) uma reversão na provisão para programa de remuneração variável no 1T20 de R$ 171 milhões, contra uma provisão de R$ 618 milhões no 4T19.

“Tendo em vista a alta volatilidade do mercado de petróleo e o tempo decorrido entre a venda do óleo e o recebimento pelo cliente, que no caso da China, por exemplo, leva por volta de 45 dias, começamos a fazer hedge de nossas exportações em abril, de forma a garantir um preço spot na data da venda. Poderemos continuar a seguir esta estratégia enquanto julgarmos necessário, sempre observando o mercado”, diz a nota da Petrobras.

EBITDA Ajustado e dívida

O EBITDA Ajustado atingiu R$ 37,5 bilhões no 1T20, um aumento de 2,7% em relação ao 4T19, apesar da redução do Brent. Isto foi possível devido ao aumento das exportações, principalmente de petróleo, com níveis recordes em janeiro e fevereiro, quando a queda no Brent ainda era moderada em relação ao mês de março.

“A recessão global não chegou a impactar significativamente o desempenho da companhia no 1T20, devendo fazê-lo nos trimestres seguintes. Por exemplo, o fluxo de caixa livre foi de US$5,9 bilhões, muito superior ao do mesmo trimestre de 2019, de US$3,1 bilhões. Entretanto, o resultado contábil do 1T20 foi consideravelmente afetado pela baixa de ativos no valor de US$ 13,4 bilhões derivada da realização de teste de impairment, implicando em prejuízo contábil não recorrente de US$ 9,7 bilhões, sem quaisquer efeitos sobre o fluxo de caixa da Petrobras”.

“Consideramos que nosso forte compromisso com a transparência deva prevalecer sempre, e decidimos aplicar o teste o mais rapidamente possível contemplando um novo cenário de preços e taxas de câmbio. Os ativos que tiveram seus valores corrigidos são majoritariamente campos de petróleo em águas rasas e águas profundas, cuja decisão de investimento foi tomada no passado e baseada em expectativas mais otimistas de preços no longo prazo, não nos surpreendendo sua desvalorização num ambiente mais desafiador”.

Com a escalada do câmbio no 1º trimestre, a dívida bruta da Petrobras em reais cresceu 36% alcançando R$ 346,7 bilhões. Em dólar, no entanto, a dívida subiu bem menos - 2,4% -, ficando em US$ 89,2 bilhões. O endividamento líquido aumentou 5,4% em dólar para US$ 66,7 bilhões e caiu 7,3% em reais, para R$ 73,1 bilhões.

Vendas internas despencam

Principal produto vendido pela Petrobras, a receita na venda de óleo diesel no 1º trimestre (R$ 18 bilhões) registrou queda de 21,9% frente ao 4º trimestre. Já as vendas de gasolina tiveram queda de 19,7%. Diante deste quadro, a receita líquida se reduziu 7,7% no 1T20, em comparação ao 4T19 devido à queda do Brent e ao menor volume de venda de derivados no mercado interno, com destaque para diesel, gasolina e QAV. Estes produtos foram os mais afetados pelos impactos das medidas de isolamento social implementadas devido à COVID-19 a partir do mês de março. Já as vendas de GLP (gás de bujão, caíram apenas 1º ante o último trimestre de 2019 e tiveram alta de 5,4% sobre igual período de 2019.

As receitas com gás natural caíram 13% devido à queda na demanda e no preço. Por outro lado, houve um aumento significativo no volume exportado, principalmente de petróleo, com recordes registrados em janeiro e fevereiro, meses em que a queda do Brent ainda não era tão acentuada quando comparada a março, resultando em um aumento de 10,5% nas receitas com exportação.

Na nota explicativa sobre o balanço a Petrobras destaca que “apesar da menor produção no trimestre, realizamos exportações que estavam em andamento no 4T19. Vale ressaltar que, mesmo com a crise e redução da demanda global por óleo e derivados, conseguimos manter a valorização dos nossos produtos no mercado internacional, devido ao seu baixo teor de enxofre, atendendo aos padrões do IMO 2020. Em termos de quebra de receita por produto no mercado doméstico, o diesel e gasolina continuam a ser os mais relevantes, apesar da redução nos volumes e preços”.