Acaba lua de mel entre Bolsonaro e mercado

A euforia dos mercados pela chegada de Jair Bolsonaro ao poder diminuiu diante das dificuldades na reforma da Previdência, dos fracos dados econômicos e da caótica gestão política dos dois primeiros meses do governo, indicam analistas.

A principal crítica dos investidores a Bolsonaro é por ele não ter assumido uma clara defesa da reforma da Previdência - proposta pelo ultraliberal ministro da Economia, Paulo Guedes. Mas os ruídos gerados pelas intempestivas intervenções de Bolsonaro nas redes sociais criaram uma preocupação adicional, como o vídeo obsceno postado na terça-feira passada no Twitter e a declaração de que democracia e liberdade, só existe quando a (...) Forças Armadas assim o quer" (sic).

"Mais uma declaração, mais uma remediação e assim vai o pós-feriado do governo Bolsonaro. A preocupação dos investidores é de que este tipo de ruído 'Trumpeiro' possa ser um padrão e não uma exceção, o que é tanto ruim para os negócios, quanto para as reformas", escreveu na sexta-feita a consultoria Infinity Assess em nota de conjuntura.

"A gente já esperava uma turbulência muito grande no processo da reforma da Previdência. Nesse sentido, não houve surpresa. O que está surpreendendo é essa instabilidade do presidente. A gente imaginava que ia ter mais crença na reforma", disse à AFP Sergio Vale, da consultoria MB Associados.

Desde que Bolsonaro assumiu, a Bovespa bateu vários recordes históricos e chegou perto de ultrapassar os 100.000 pontos (98.588 em 4 de fevereiro). Na sexta-feira, flutuava em torno de 94.000 pontos. A alta do índice Ibovespa em 2019, que chegou a ser de mais de 12%, atualmente é de 7%.

E o dólar, que desde o início do governo tinha caído de R$ 3,809 para R$ 3,658, voltou a ser cotado a R$ 3,88 nna semana passada.

Economia pouco dinâmica

"O arrefecimento do otimismo dos investidores com o Brasil - o que é diferente de dizer com o governo de Jair Bolsonaro propriamente dito - justificou-se, entre outros fatores, pela divulgação de indicadores de conjuntura mais fracos que o esperado (índices de confiança, vendas no varejo, produção industrial, etc)", afirmou Nicolás Takeo, da corretora Socopa, em entrevista à AFP.

Takeo considera difícil avaliar se os investidores deram crédito político demais a Bolsonaro, mas aponta que Guedes, ao optar por uma reforma mais dura provocou divergências que podem dificultar sua aprovação no Congresso.

Sergio Vale prevê que a reforma não começará a ser votada, no melhor dos casos, no fim de julho. Por seu caráter constitucional, ela requer maioria qualificada de três quintos tanto na Câmara dos Deputados como no Senado.

Teremos "um primeiro semestre com muita turbulência no mercado", estima. Enquanto isso, as projeções de crescimento continuam caindo, após um decepcionante 2018, com um aumento do PIB de 1,1%, igual ao de 2017.

As expectativas do mercado para 2019 caíram de 2,57% no início de fevereiro para 2,30%, de acordo com a última pesquisa Focus do Banco Central.

A OCDE prevê um crescimento de 1,9%, dois décimos a menos que em novembro passado, em um contexto de desaceleração global. (AFP)