Xi Jinping enfrenta as dúvidas dos deputados chineses

O presidente chinês, Xi Jinping, que enfrenta uma desaceleração da economia e uma guerra comercial com os Estados Unidos, deverá esclarecer as dúvidas dos deputados durante a sessão anual do Parlamento, que começa na terça-feira (5).

A Assembleia Popular Nacional (ANP), câmara parlamentar do regime comunista, não questionará a linha seguida pelo homem forte de Pequim, no poder há seis anos.

No entanto, o contexto mudou desde a última sessão, em março de 2018, quando a ANP concordou em abolir o limite de dois mandatos presidenciais, oferecendo potencialmente um mandato vitalício a Xi Jinping.

Este último viu o seu "pensamento" inscrito na Constituição, uma honra que o igualou ao fundador da dinastia comunista, Mao Tze-Tung.

Um ano depois, sua visão de uma "nova era", em que uma poderosa China vai estar no centro dos assuntos mundiais, choca-se com obstáculos imprevistos: um confronto comercial com os Estados Unidos de Donald Trump, que impacta a economia, enquanto as "Novas rotas da seda", seu projeto mundial de infraestrutura, enfrenta a oposição de vários países para os quais os investimentos chineses fluem.

"A situação será muito mais difícil do que no ano passado para Xi Jinping, um ano atrás ele estava no topo", aponta o sinólogo Willy Lam.

"Xi Jinping é alvo de críticas de membros do partido por sua gestão econômica e por não ter respondido com sabedoria ao desafio de Donald Trump", considera.

 

 

Sinal da tensão dentro do regime, o Partido Comunista Chinês (PCC) não se reúne há um ano com o seu Comitê Central, uma espécie de parlamento interno que se pronuncia sobre as grandes diretrizes do país.

Várias centenas de autoridades provinciais se reuniram em janeiro em Pequim com altos funcionários do governo central.

Na ocasião, Xi Jinping lembrou que a desaceleração econômica poderia ameaçar a autoridade do partido.

O crescimento do país caiu para 6,6% no ano passado, seu menor resultado em 28 anos. O primeiro-ministro Li Keqiang anunciará nesta terça-feira perante os 3.000 deputados a meta de crescimento para 2019, que poderia estar subvalorizada entre 6% e 6,5%.

"A portas fechadas, os deputados provinciais exigirão que Xi Jinping faça alguma coisa para reativar a economia", prevê Lam, que acredita que o presidente ouvirá "gritos de raiva".

Mas Xi Jinping, que desde que chegou ao poder pressiona a imprensa, a internet, os dissidentes e seus opositores internos, permanece em uma posição forte, segundo Matthias Stepan, do Instituto Mercator para Estudos Chineses (Alemanha).

 

"Não é só o poder econômico que faz dele um líder forte, mas também a ideologia política e a campanha permanente que o coloca no centro de tudo", diz o sinólogo.

Confidencialmente, empresários privados protestam contra a obrigação de estabelecer células do PCC em suas empresas e de ver ex-empresas públicas, muitas vezes deficitárias, se beneficiarem do apoio do Estado e dos bancos.

"Por um lado, o governo quer desenvolver o mercado, mas por outro procura suprimir as liberdades que o acompanham", destaca o economista Sheng Hong, do Instituto Unirule, com sede em Pequim.

O poder "teme uma economia sem controle estatal".

As preocupações dos empresários estão ligadas às demandas da administração Trump, que exige o fim dos subsídios ao setor público.

A ANP, que busca atrair americanos, votará durante sua sessão de dez dias uma lei sobre investimento estrangeiro, que supostamente proibirá transferências forçadas de tecnologia.

Uma legislação criticada pelos europeus que a veem como um passo necessário para alcançar um acordo comercial com Washington.

 

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