Macri defende austeridade

O presidente da Argentina, Mauricio Macri, fez uma firme defesa de sua política de austeridade, ontem, no tradicional discurso do Estado diante da Assembleia Legislativa, em que pese a crise econômica que atinge a terceira maior economia da América Latina.

"Hoje, a Argentina está melhor que em 2015. Continuamos fazendo mudanças profundas. Saímos do pântano", disse em um discurso veemente, a toda hora interrompido por ovações dos legisladores. A realidade, no entanto, diz o contrário: a oito meses da próxima eleição, a parcela da população do país classificada como pobre passa dos 33%. Quando Macri assumiu, no terceiro trimestre de 2015, essa faixa da população era de 29,2%.

A primeira sessão do Congresso foi turbulenta, de acordo com um clima de campanha para as eleições gerais de 27 de outubro. O presidente falava em voz alta e às vezes gritava e desanimava, enquanto a oposição protestava e levantava cartazes com a legenda "Existe outra maneira" ou "Macri já saiu".

Ao justificar o grave corte nos gastos públicos que empurrou o país para a recessão, ele disse que "o déficit fiscal é o que causa inflação e pobreza". Seu objetivo com o FMI é "o déficit fiscal zero". Macri disse que "algumas mudanças exigem paciência" e que "não há como voltar atrás" com as políticas que estão sendo aplicadas, apesar de a inflação acumular 50% em um ano, a pobreza estar crescendo, fábricas e empresas fechando e quase 200 mil funcionários demitidos em 2018, segundo dados oficiais.

Macri não voltou a dizer que "a inflação está caindo", como tinha declarado há um mês. As estatísticas oficiais apontaram 2,9% de alta dos preços do varejo em janeiro, o que elevou o acumulado em ritmo anual a 50%, o mais alto em 28 anos.

O presidente enfrentou quem gritava "mentiroso". "Os insultos falam mais de você do que de mim", ele respondeu diversas vezes. Macri tentará sua reeleição por mais um mandato de 4 anos, ainda que um dos maiores institutos de pesquisa do país, o Poliarquía, acaba de revelar que 64% dos argentinos desaprovam a gestão de Macri.

Não se sabe se a maior rival de Macri nas pesquisas, a ex-presidente e senadora Cristina Kirchner, apresentará seu candidatura. Ela enfrenta mais de dez casos na Justiça por suspeitas de corrupção.

"Estamos no caminho certo", reiterou o presidente. No entanto, a recessão levou a economia a recuar 2,6% em 2018, com uma queda de 7% em dezembro em relação ao mesmo período do ano anterior. Quase 200 mil pessoas perderam seus empregos no ano passado, segundo dados oficiais.

A deputada da centro-esquerda Victoria Donda, filha de desaparecidos na ditadura, disse que o discurso "foi de um presidente que está deixando o poder". Nos arredores do Congresso, Olga Alderete, uma faxineira que ganha 6 mil pesos por mês (US$ 150), pede "que Macri se vá". "Não conseguimos mais, tudo aumenta, as fábricas estão fechando", disse, enquanto outras pessoas da periferia levantavam uma grande faixa com as palavras "Fuera Macri Ya" (Fora Macri já).