Nissan freia investimentos na Inglaterra, lançando preocupações sobre Brexit

A decisão da Nissan de cancelar um investimento significativo previsto em sua fábrica no nordeste da Inglaterra, a poucas semanas da data estabelecida para o Reino Unido deixar a União Europeia (UE), despertou nesta segunda-feira (4) o debate político sobre o Brexit.

Referindo-se à "incerteza persistente" sobre o Brexit, o grupo japonês tinha anunciado no domingo o fim de seus planos, apresentados em outubro de 2016, de montar seu modelo X-Trail para o mercado europeu em sua enorme fábrica britânica, a maior que tem na Europa.

Em vez disso, o SUV urbano será fabricado em Kyushu, uma ilha no sul do Japão, onde já é montado para outros mercados.

O anúncio caiu como um balde de água fria em Sunderland, uma cidade de cerca de 300.000 habitantes, salva da desindustrialização pela chegada da fabricante japonesa em 1980, que votou esmagadoramente a favor da Brexit no referendo de junho de 2016.

A onda de choque também chegou a Londres, onde a primeira-ministra Theresa May teve que realizar uma teleconferência com cerca de 55 diretores de multinacionais europeias operando no Reino Unido.

A decisão da Nissan "é obviamente muito decepcionante", disse o porta-voz de May à imprensa, enquanto partidários e críticos do Brexit debatiam se a decisão foi realmente motivada pela retirada britânica iminente da UE.

"O anúncio de Nissan é um revés para o setor e para a região, onde se contava com uma expansão de instalações e da mão de obra empregada", lamentou o ministro Empresas, Greg Clark.

O próprio Clarck disse ao jornal econômico Financial Times que a Nissan garantiu que sua decisão é "um sinal de alerta" do prejuízo que um Brexit sem acordo poderia provocar ao setor automobilístico no Reino Unido.

O país deve deixar o bloco europeu em 29 de março, mas a menos de oito semanas ainda não conseguiu ratificar um acordo de saída da UE.

 

A decisão do grupo japonês não significa que sua fábrica e seus 7.000 funcionários na Inglaterra estejam ameaçados, já que lá são fabricados outros veículos da Nissan, como o carro elétrico Leaf.

Mas a notícia é muito decepcionante para uma região que ficou aliviada em outubro 2016 pelo anúncio do então presidente do grupo, o franco-brasileiro-libanês Carlos Ghosn, que chegou a se reunir com May para obter garantias das condições de produção no Reino Unido e de comércio com a Europa continental depois do Brexit.

Contudo, desde então, a incerteza sobre o Brexit cresceu, e Ghosn foi afastado em novembro da presidência da Nissan por acusações de corrupção que ele nega.

De acordo com David Bailey, especialista em política industrial da Aston Business School, a fabricante japonesa realizou uma "avaliação" de algumas decisões de investimento tomadas por Ghosn.

Além disso, "a incerteza sobre a empresa coincide com uma enorme incerteza sobre o futuro relacionamento" do Reino Unido com a UE, disse ele à BBC.

Isso "não ajuda empresas como a nossa a planejar o futuro", disse a Nissan ao anunciar sua decisão.

O setor automobilístico é particularmente afetado pela iminência do Brexit, já que a montagem de um carro no Reino Unido exige, na maioria dos casos, a importação de peças do outro lado do Canal da Mancha.

Como um todo, os investimentos no setor automobilístico caíram quase à metade no ano passado no Reino Unido.

 

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