May descarta adiar Brexit

LONDRES - A primeira-ministra britânica, Theresa May, reafirmou ontem sua determinação em implementar o Brexit em 29 de março e obter concessões da União Europeia (UE) sobre o acordo de separação, apesar da recusa de Bruxelas em renegociá-lo.

“Estou determinada a implementar o Brexit, e determinada a fazê-lo no prazo - 29 de março de 2019”, escreveu a líder conservadora em uma coluna publicada pelo “The Sunday Telegraph”.

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May buscará consenso no Parlamento (Foto: Jessica Taylor/AFP)

May descartou, assim, a possibilidade de um adiamento do Brexit, como sugerido por vários políticos, incluindo o ministro das Relações Exteriores, Jeremy Hunt, e o ministro do Comércio Exterior, Liam Fox, para permitir a aprovação da legislação necessária para sua execução.

May também disse que deseja encontrar um consenso no Parlamento. “Quando eu voltar a Bruxelas, vou lutar pela Grã-Bretanha e pela Irlanda do Norte. Estarei armada com um novo mandato, novas ideias e determinação renovada para acordar uma solução pragmática para o Brexit”, insistiu.

Após a rejeição, em janeiro, do acordo de separação da UE, os deputados adotaram na terça-feira uma emenda pedindo “medidas alternativas” às disposições sobre o chamado “backstop”, que visa evitar o retorno de uma fronteira física entre a província britânica da Irlanda do Norte e a República da Irlanda.

Esta cláusula prevê uma união aduaneira entre o Reino Unido e a UE e, para a província britânica da Irlanda do Norte, um alinhamento a certas regulamentações europeias. Os deputados britânicos, especialmente os ‘Brexiters’, acreditam que isso levará à amarração permanente de seu país à UE.

Após a votação da emenda, Theresa May disse que queria reabrir as negociações com a UE, na esperança de evitar um “no deal”, embora os europeus se recusem firmemente a isso. “Isso é o que o Parlamento me encarregou de fazer”, ressaltou no “Sunday Telegraph”, dizendo que o líder da oposição trabalhista, Jeremy Corbyn, também é a favor.

“Se nos unirmos e falarmos com uma só voz, acho que podemos encontrar o caminho certo”, insistiu May. Ela negou que uma reabertura das negociações sobre o “backstop” ameaçaria o acordo de paz de 1998 que encerrou três décadas de violência na Irlanda do Norte, como argumentou o ministro das Relações Exteriores da Irlanda no “Sunday Times”.

No caso de May não conseguir aprovar um acordo revisado até 13 de fevereiro, organizará uma votação na Câmara dos Comuns em 14 de fevereiro para permitir que os membros se expressem.

O governo britânico também negou as informações que circulam na imprensa de que o planeja realizar eleições antecipadas em 6 de junho, enquanto o Partido Trabalhista aparece em uma posição de debilidade.

De acordo com uma pesquisa publicada pelo “The Observer” e realizada com mais de 2 mil pessoas, os trabalhistas teriam 34% das intenções de voto, sete pontos atrás dos conservadores (41%).

Sem consenso, o Reino Unido pode deixar o bloco europeu sem acordo no final de março, uma possibilidade temida pela comunidade empresarial. “Seríamos capazes de lidar com esse cenário, mas não é do nosso interesse seguir esse caminho”, disse Liam Fox, da Sky News, à medida que os cenários de desastre se multiplicam na imprensa.

Neste contexto, a montadora japonesa Nissan anunciou ontem que desistiu de produzir um de seus modelos, o crossover X-Trail, na Inglaterra. “A contínua incerteza em torno do futuro relacionamento do Reino Unido com a UE não ajuda empresas como a nossa a planejar o futuro”, justificou Gianluca Ficchy, presidente da Nissan Europa, em um comunicado.