FMI reduz previsões de crescimento por incertezas com disputas comerciais

As disputas comerciais, o Brexit e outras incertezas ameaçam piorar o crescimento mundial, alertou nesta segunda-feira, em Davos, o Fundo Monetário Internacional (FMI), que estima uma desaceleração maior que a prevista, com redução das perspectivas para a América Latina.

Em sua atualização do relatório "Perspectivas da economia mundial" (WEO, na sigla em inglês), o Fundo foi ainda mais pessimista que em suas projeções anteriores, de outubro, destacando a existência de riscos no panorama.

A entidade projeta um crescimento de 3,5% para a economia mundial neste ano, 0,2 ponto a menos que em sua perspectiva de outubro, na qual também tinha reduzido prognósticos anteriores.

O FMI projeta um crescimento mundial de 3,6% em 2020, o que significa uma queda de 0,1 ponto em relação ao prognóstico de outubro.

E para a América Latina, a organização reduziu suas previsões para este ano e para o próximo em 0,2 ponto abaixo do previsto em outubro, a um nível de 2,0% em 2019 e 2,5% em 2020.

"Uma escalada das tensões comerciais além do que estava incorporado nos prognósticos continua sendo uma fonte crucial de risco para as previsões", indicou o FMI, que destacou que as condições financeiras já pioraram nos últimos meses.

Este é o segundo corte das previsões da economia mundial em dois meses, embora, de acordo com a organização, as duas maiores economias do mundo, Estados Unidos e China, permaneçam seguras e seus prognósticos de crescimento ficaram intactos em 2,5% e 6,2%, respectivamente.

Várias grandes economias sofreram, contudo, reduções significativas - entre elas, Alemanha, Itália e México.

O FMI alertou para riscos ao crescimento persistentes e acusou as disputas de tarifas sobre bilhões de dólares entre EUA e China, apesar da trégua anunciada em 1 de dezembro pelos dois países.

"A possibilidade de que as tensões voltem a surgir na primavera (boreal) projeta uma sombra nas perspectivas da economia global", alertou a entidade.

Nos Estados Unidos, a paralisação orçamentária que se estende há um mês, lançando o país em um terreno desconhecido, começa a aparecer na atividade econômica.

Contudo, o FMI não prevê que a paralisação parcial do governo afete significativamente a solidez atual da economia dos Estados Unidos, que poderia se beneficiar de um efeito compensatório quando o "shutdown" acabar.

Além dos efeitos na economia, a crise política é patente, e obrigou o presidente americano, Donald Trump, a cancelar sua ida ao Fórum de Davos, que reúne 3.000 altos executivos de empresas e líderes políticos na luxuosa estação de esqui suíça.

 

Esta revisão para baixo do crescimento na América Latina deve-se a um corte nas perspectivas de crescimento para o México em 2019 e 2020, atribuído a uma queda no investimento privado, e ao fato de que a retração na Venezuela será pior do que o esperado.

Contudo, o relatório destaca que, no caso do Brasil, o país está no caminho da recuperação após a recessão que abalou sua economia em 2015 e 2016, com um crescimento revisado de 0,1 ponto percentual para cima, a 2,5% em 2019.

Já para o México, o FMI projeta um crescimento de 2,1%, com um recuo de 0,4 ponto em relação a outubro.

Para a Argentina, no entanto, a tempestade ainda não acabou e a recessão continuará em 2019, como esperado, já que o país está implementando as reformas acordadas com o FMI, mas a economia pode deslanchar em 2020.

 

Para a zona do euro, o FMI se mostra menos otimista com uma projeção de crescimento de 1,6% frente às previsões anteriores, que estimavam em 1,9% a expansão projetada.

Na região a Alemanha é o país com maior corte, de 0,6 ponto, a 1,3%, seguida da Itália (-0,4 ponto, a 0,6%) e da França (-0,1 ponto, a 1,5%).

Para a Espanha, a previsão se mantém estável, com crescimento de 2,2% do PIB em 2019 e de 1,9% em 2020.

O Fundo também pediu para britânicos e europeus darem fim à incerteza sobre o Brexit, destacando que a situação atual afeta os investimentos no Reino Unido.

"É imperativo que os dirigentes políticos terminem rapidamente com esta incerteza" sobre o Brexit, declarou a nova economista-chefe do Fundo, Gita Gopitath, em coletiva de imprensa em Davos.

Um Brexit sem acordo "significaria uma queda de longo prazo entre 5% e 8% do PIB, algo realmente significativo", alertou Gopinath.

 

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