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Economia

Ritmo da economia frustra projeções

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Apesar das projeções positivas para o próximo ano, a economia vai chegando ao final deste ano sem ter conseguido apresentar sinais sólidos de retomada. Com a influência da crise argentina, que prejudica a indústria, e o efeito negativo de uma corrida eleitoral que provocou muita incerteza, os dados do último trimestre têm sido mais fracos que os esperados, corroborando o cenário de dificuldade que o País tem enfrentado para se afastar dos efeitos da recessão que atravessou.

Em outubro, os serviços (setor de maior peso dentro do PIB) ficaram praticamente estagnados, com alta de 0,1%, de acordo com dados divulgados ontem pelo IBGE. Os outros setores da economia também não tiveram bom desempenho: o comércio recuou 0,4% no mês, enquanto a indústria cresceu apenas 0,2%.

"Esse quarto trimestre tem mostrado resultados muito ruins de atividade econômica. Apesar da melhora da confiança, o setor industrial, por exemplo, ainda está sofrendo muito. Todos os dados de outubro e previsões para novembro já mostram uma produção industrial muito ruim", avalia a pesquisadora Silvia Matos, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da FGV.

Mesmo com o fim das eleições e aumento da confiança de empresários e consumidores, o setor varejista também não vem se animando com o fim de ano. De acordo com a Confederação Nacional do Comércio (CNC), as vendas de Natal devem ter crescimento real de 3,1% - abaixo de 2017, quando avançaram 3,9%.

"De janeiro a abril, a economia estava em um ritmo muito bom. Aí, tivemos a greve dos caminhoneiros, o crescimento das incertezas políticas e uma piora do cenário internacional. A notícia boa é que a inflação se manteve baixa, principalmente pela queda do petróleo", diz Silvia Matos.

Ela lembra que a crise que afeta os argentinos, destino de 70% das exportações brasileiras de automóveis, tem sido sentida como um duro golpe pela indústria brasileira. No fim do ano, 650 mil veículos brasileiros devem ser vendidos ao exterior, abaixo do que era estimado no início de 2018.

Além da crise na economia argentina, a indústria também sofre com alta ociosidade, o que posterga investimentos e novas contratações. Em novembro, a indústria paulista encerrou 14,5 mil postos de trabalho, sobretudo nos setores de alimentos e vestuário, de acordo com a Fiesp. No acumulado do ano, o recuo foi de 0,16%.

Ano novo. Mas, apesar de um Natal magro, a perspectiva dos economistas é que o ano que vem seja melhor. Com as incertezas eleitorais agora resolvidas, resta ao governo de Jair Bolsonaro dar sinais claros de que irá conduzir as reformas, como a da Previdência. Os economistas do Ibre/FGV estimam que o País cresça 2,4% no ano que vem.

Para o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, os serviços, que devem fechar 2018 estagnados, podem crescer em 2019 pela primeira vez em cinco anos. Já o varejo ampliado (que inclui materiais de construção e veículos) deve crescer 5,5%.

"O ano de 2018, embora seja positivo não pode ser deixar de ser classificado como frustrante. Esperava-se uma recuperação mais rápida depois da recessão, mas o emprego e o consumo só vão reagir com o retorno do investimento. E o empresário só vai investir quando o novo governo estiver com a caneta na mão e disser a que veio."

Ele avalia que, tirando altas pontuais nas vendas do comércio, embaladas pela liberação do PIS/Pasep, a inércia da economia se estendeu por um tempo mais longo do que se que se imaginava, impedindo uma recuperação mais robusta do varejo ainda este ano.

O economista Fabio Silveira, da Macrosector, concorda que o ano que vem deve ser melhor para a economia. "Este ano foi de uma convergência de fatores negativos: ressaca de uma forte crise, greve dos caminhoneiros e uma eleição que fez com que todos evitassem dar grandes passos. Para o ano que vem, todos os fundamentos da economia estão bem encaminhados."

Ele ressalta que o próximo governo vai assumir o País com a inflação e o câmbio sob controle e com a discussão sobre a necessidade de reformas estruturais, como a da Previdência, já iniciadas. "Só é preciso resolver o calcanhar de Aquiles do governo, que é a questão fiscal, para que o investimento volte. Não vai ser fácil, mas é inevitável." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.