Conferência no Rio discute relação com a China e meio ambiente

Os possíveis caminhos a serem trilhados pela agenda comercial do governo Jair Bolsonaro, a tomar posse em 1º de Janeiro, dominou a tônica de especialistas e embaixadores brasileiros e estrangeiros reunidos em uma conferência patrocinada pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) com o suporte do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) e da Fundação Konrad Adenauer ontem, no Museu do Amanhã, no Centro do Rio.

A abertura do Brasil para o comércio exterior, a parceria com a China e as mudanças climáticas estiveram entre os principais temas discutidos na 1ª Conferência Anual Diálogos Cebri-BNDES. Logo no início da tarde, os posicionamentos do futuro chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, sobre a suposta supremacia das nações ocidentais foram alvo de ironias de Edmar Bacha, um dos mentores do Plano Real. “Espero que o Brasil se expanda não apenas para o Ocidente, mas também para o Oriente”, declarou o economista, arrancando risadas da plateia, em referência às fortes relações comerciais do país com nações árabes e asiáticas,.

As relações com Pequim também foram densamente exploradas pelos palestrantes. Principal parceira comercial do Brasil, a China é apontada por Araújo como beneficiária do projeto da globalização apoiada em um conluio entre “oligarquias nacionais e num novo eixo socialista latino-americano”, mas para a conselheira política da embaixada chinesa no Brasil, Bai Jie, os dois países podem se beneficiar de uma aliança mais forte. “Temos muitas tarefas para resolvermos juntos em 2019, como a cúpula dos Brics no Brasil. Nossas relações bilaterais podem trazer um novo capítulo para o futuro”, avaliou a representante, que considera os laços entre Pequim e Brasília “pró-ativos e maduros”.

O diretor do Banco Mundial para o Brasil, Martin Raiser, também acredita no potencial a ser trabalhado. “Há uma complementaridade enorme entre os dois países. A China tem uma população muito grande e muito capital. O Brasil tem muitos recursos naturais”, avalia Raiser. “São dois países emergentes de alta e média renda que podem ganhar muito com o desenvolvimento urbano e a eficiência energética. Mas a abertura comercial e os investimentos em infraestrutura exigem maior governança dos investimentos. Sem isso, o capital chinês não poderá fazer sua contribuição”, alerta.

Para o representante da Rede Brasileira de Estudos sobre a China, Javier Vadell, a ascensão da China como potência instituiu um novo padrão global e o próximo governo precisa estar atento à nova realidade. “Estamos frente a outro modelo de globalização liderado pela China com características particulares e dentro do capitalismo global. Esse processo está no início, começou com o governo Xi Jinping e não é somente eurasiático, como inicialmente se propôs”, explica o acadêmico, citando o projeto One Belt One Road, que consiste em fortes investimentos em infraestrutura na Europa, África e Ásia, como exemplo.

As mudanças climáticas e a defesa ambiental mereceram foro próprio, em uma rodada mediada pela ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, à frente da pasta no fim do segundo governo Lula e em toda a passagem de Dilma pelo Palácio do Planalto. A tradição brasileira na agenda verde manteve acesa a expectativa por avanços nos próximos anos, apesar das declarações de Bolsonaro contrárias ao Acordo de Paris durante a campanha eleitoral e a fracassada tentativa de unificar os ministérios do Meio Ambiente e da Agricultura.

“Zero carbono, zero trabalho escravo, zero desmatamento. Não conheço outro país que seja mais capaz de fazer isso que não seja o Brasil, principalmente com o excelente trabalho de setores como a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária)”, declarou o embaixador do Reino Unido no Brasil, Vijay Rangarajan. “A importância do Brasil nesse âmbito internacional é fundamental. É um parceiro indispensável na mudança do clima”, acrescentou o diplomata britânico.

Teixeira, que atualmente é co-presidente do Painel Internacional de Recursos da ONU, alertou para a gravidade do desmatamento na Amazônia. “O impacto ambiental está chegando nos seus limites e pode chegar ao ponto de irreversibilidade”, frisou a ex-ministra. Ela também defendeu que o futuro governo encare a derrubada das matas sob um novo parâmetro. “O desmatamento na Amazônia é predominantemente produto da corrupção. Por isso, é tarefa do futuro ministro da Justiça incluí-lo no rol da agenda de combate a corruptores”, opinou.

Ainda no âmbito da próxima administração, a brasileira se disse contente com a indicação de Joaquim Levy, seu antigo colega de Esplanada no governo Dilma, para o comando do BNDES na gestão Bolsonaro. De acordo com Teixeira, o então ministro da Fazenda da administração petista colaborou ativamente com o Ministério do Meio Ambiente na formulação das metas do Brasil para o Acordo de Paris, chamadas oficialmente de Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês) e consideradas as mais ambiciosas entre os países signatários.