Com onda vendedora no fim do pregão, Dow Jones cai 3,15% e Nasdaq desaba 4,08%

As bolsas em Nova York fecharam em forte queda nesta quarta-feira, 10. A possibilidade de um aperto mais rigoroso por parte do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) se aliou às maiores tensões entre Estados Unidos e China e às perspectivas de expansão econômica global mais amena e desencadeou um movimento de liquidação entre os índices nova-iorquinos.

O índice Dow Jones fechou em queda de 3,15%, para 25.598,74 pontos, enquanto o S&P 500 caiu 3,29%, para 2.785,68 pontos, ambos com as baixas mais intensas desde fevereiro. Já o Nasdaq encerrou em baixa de 4,08%, para 7.422,05 pontos, maior recuo desde 24 de junho de 2016. Já o índice de volatilidade VIX, considerado o "medidor de medo" de Wall Street, fechou no maior valor desde abril - com salto de 43,95%, aos 22,96 pontos.

O "sell-off" que atingiu as bolsas de Nova York se deu, quem diria, em meio ao otimismo com o desempenho da economia americana à medida que bancos como UBS e Goldman Sachs elevaram a projeção para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do país no terceiro trimestre, gerando a expectativa de que o Fed possa elevar juros ainda mais aceleradamente do que se previa. Todo o pânico com as ações americanas gerou procura por ativos considerados mais seguros, como o iene, o ouro e os Treasuries de curto prazo, enquanto o dólar apresentou ganho generalizado em relação a moedas de mercados emergentes.

Nem os pedidos do presidente dos EUA, Donald Trump, para que o Fed seja mais lento ao normalizar o custo do dinheiro adiantaram. "A questão levantada pelo presidente é justa, mas estou confortável com a trajetória de aperto prevista porque a economia dos EUA está indo muito bem", afirmou Charles Evans, que comanda a distrital de Chicago do banco central americano. Em painel realizado durante a tarde, o dirigente disse que a taxa de desemprego pode chegar a 3,5% e que os juros precisam continuar subindo no país.

Uma expansão de 3% em 2018, inclusive, se mostra cada vez mais próxima de se concretizar. Nesta quarta-feira, o UBS aumentou a projeção de crescimento anualizado do PIB dos EUA do terceiro trimestre ante o segundo de 2,9% para 3,2%, enquanto o Goldman Sachs elevou sua previsão para o indicador para 3,5%. "Os indicadores desta manhã sugerem uma maior contribuição para o crescimento dos investimentos no terceiro trimestre", escreveram, em nota a clientes, os analistas do Goldman Sachs, apontando para os estoques no atacado, que tiveram crescimento de 1,0% na passagem de julho para agosto, acima do esperado pelo mercado (+0,8%).

Ainda há a perspectiva de aceleração do índice de preços ao consumidor (CPI) dos EUA na passagem de agosto para setembro, que deve subir 0,2% ante 0,1% no mês anterior, como visto em pesquisa Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, feita com 32 estimativas de instituições financeiras.

Ao mesmo tempo, continua no radar a tensão nas relações entre os EUA e a China. A secretária de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Kirstjen Nielsen, afirmou hoje que a China é uma das ameaças às eleições legislativas americanas de novembro monitoradas nacionalmente pelo seu departamento. "A China está, absolutamente, exercendo um esforço sem precedentes para influenciar a opinião americana", disse. Ações do setor industrial, especialmente sensíveis à temática, foram penalizadas, com a Boeing em queda de 4,66%, Caterpillar em baixa de 3,84% e 3M com recuo de 3,93%.

O otimismo com a economia americana, no entanto, contrasta com o desempenho global. O Fundo Monetário Internacional (FMI) cortou a projeção de crescimento do PIB global de 3,9% para 3,7%, enquanto o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, advertiu que um cenário de guerra comercial total resultaria em uma redução de 1,9 ponto porcentual na expansão econômica mundial.

"A corrida de quase uma década no mercado de ações global está alimentando a ansiedade sobre sua capacidade de continuar. Uma preocupação é o possível estado frágil das bolsas, por um pequeno grupo de ações estar contribuindo para a maior parte dos retornos dos mercados este ano", afirmou o estrategista-chefe global de investimentos da BlackRock, Richard Turnill. Não por acaso, as techs, que lideram os movimentos de alta em 2018, foram as mais penalizadas: a Apple cedeu 4,63%, a Netflix despencou 8,38% e a Microsoft baixou 5,43%.