Jornal do Brasil

Economia

Petroleiras estrangeiras avançam sobre o pré-sal

Shell, ExxonMobil e BP lideram consórcios vencedores em licitação do pré-sal com participação tímida da Petrobras

Jornal do Brasil GABRIEL VASCONCELOS, gabriel.vasconcelos@jb.com.br

As petroleiras estrangeiras dominaram a 5ª Rodada de Licitações do pré-sal, realizada ontem em um hotel na Barra da Tijuca. A Petrobras, por sua vez, teve a participação mais tímida de sua história nesse tipo de leilão: integrou um consórcio derrotado e arrematou a menos atraente das áreas em jogo, Sudoeste de Tartaruga Verde, um apêndice de campos que já opera na Bacia de Campos. Agora, com a investida pesada da anglo-holandesa Shell, da americana ExxonMobil e da britânica BP, o número de operadoras no pré-sal chegou a seis. São empresas que não se restringem ao papel de investidoras, mas controlam, de fato, a produção. Além das três, completam a lista a francesa Total, a norueguesa Equinor e a Petrobras, que ainda detém a maior parte das operações, mas vem perdendo hegemonia. O fato foi comemorado pelos representantes da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e do governo Michel Temer.

Macaque in the trees
Executivos da ExxonMobil, Shell e Petrobras depositam propostas em urna da ANP (Foto: Beto Herrera)

“Qualquer coisa que depende só de uma empresa não é sustentável. O Brasil é bem maior que a Petrobras”, afirmou o Secretário do Ministério de Minas e Energia Márcio Félix. “Se houver uma crise, como a da Petrobras, isso fica restrito a uma única empresa, o que significa uma redução extraordinária do risco”, completou Décio Oddone, diretor geral da ANP. No governo, impera a lógica de que a Petrobras não tem condições de arcar com os investimentos necessários para ativar campos no curto prazo, e que o momento de vendê-los é agora, antes que energias limpas roubem o protagonismo do petróleo.

Além da transformação no mapa do pré-sal, o governo também comemorou a arrecadação imediata (R$ 6,82 bilhões em bônus de assinatura) e no longo prazo. Com todas as quatro áreas arrematadas sob um ágio médio de 170,5% em relação às parcelas mínimas de “óleo-lucro” à União previstas pelo edital, a ANP estima uma arrecadação na casa dos R$ 240 bilhões em royalties, participações e tributos ao longo dos 35 anos de duração dos contratos. Para chegar a estas cifras, a ANP considerou o barril a US$ 70. Hoje, o brent vale quase US$ 82 e o mercado já o projeta a US$ 100 dólares no futuro próximo.

Desta vez a clientela foi variada. Cada área foi para um consórcio de petroleiras diferente. O primeiro campo a ser vendido, Saturno, teve o ágio mais significativo: 300,23%. O consórcio formado por Shell e Chevron, cada uma com metade do negócio, propôs 70,20% de óleo-lucro para o estado brasileiro, superando em muito a proposta do pool formado pela ExxonMobil e a QPI, do Catar, que propuseram 42,49%. O mínimo exigido era 17,54% e o bônus pago foi de R$ 3,125 bilhões.

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Resultados da 5ª rodada de licitações do pré-sal (Foto: JB)

Embora exigisse uma quantia igual em bônus, Titã, o segundo campo a ser leiloado, teve propostas “módicas”. Foi arrematado pelo consórcio formado pela ExxonMobil (64%) e QPI (36%), que ofereceu 23,49% do lucro em petróleo à União. Como o mínimo era 9,53%, o ágio ficou em 146,48%.

Rejeitado na 3ª Rodada, no início do ano, o campo de Pau Brasil foi o alvo da maior disputa. O consórcio formado pela BP (50%), a colombiana Ecopetrol (20%) e a Chinesa CNOOC (30%) levou a melhor com uma oferta de 63,79%. A proposta superou, por muito pouco, a investida de 62,40% do pool formado pela francesa Total, a chinesa CNODC e a Petrobras. O ágio, neste caso, foi de 157,01%. Pela área, foram pagos R$ 500 milhões em bônus de assinatura.

Até então à margem do processo, a Petrobras garantiu o pequeno Sudoeste de Tartaruga Verde com uma proposta única, igual ao mínimo previsto no edital: 10,01%. Pelo campo, pagou um bônus de R$ 70 milhões.

Curiosidades do leilão

No ritual da licitação, todas as atenções se concentram no auditório, que recebe uma centena de executivos de petroleiras, agentes públicos e jornalistas. No palco, as autoridades recebem, aprovam e abrem os envelopes com as ofertas, depositados em urnas transparentes. O ambiente mais decisivo, porém, é o saguão aberto de onde partem os representantes das empresas. Eles têm dois minutos para entregar as propostas, mas, na tentativa de driblar a concorrência, costumam aguardar os dez segundos finais. Então, recebem a oferta mais estratégica das mãos de um “office boy de bilhões”, um segundo executivo que administra uma pasta com várias propostas, pronto para substituir o envelope ao menor movimento - ou não - do concorrente. Ontem, na apertada disputa por pau Brasil, vencida pela BP com uma oferta apenas 1,39 pp maior que a da Total, os executivos rivais receberam os envelopes de seus pares, desejaram boa sorte ao rival e ingressaram no auditório. Os britânicos levaram a melhor. Na saída, se abraçavam como garotos após um gol. Um golaço.



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