Jornal do Brasil

Economia

Como o BC evitou marolinha

Com ajuda do Fed, Meirelles surfou na onda da crise que evitou maior quebradeira em 2008

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Vista dez anos depois, e em cima de reservas cambiais de US$ 380 bilhões em meio ao um déficit em contas correntes (balança comercial + serviços e rendas) esperado em US$ 10 bilhões para este ano, a crise de financeira mundial de 2008 parece ter sido apenas uma marolinha, para o Brasil, como chegou a desdenhar o presidente Lula, em setembro de 2008.

Na verdade, quando se reveem as contas da época, fica claro que o Brasil passou um sufoco nas contas externas e a economia brasileira ficou asfixiada com a perda do acesso ao crédito financeiro internacional, que vinha turbinando o crédito e a economia brasileira. Com a crise se agravando desde 2007, quando estouraram as duas gigantes do mercado hipotecário dos Estados Unidos, Fannie Mae e Freddie Mac, o Brasil viu encolherem as linhas de crédito entre maio de 2007 a agosto de 2008,. Na´época, a balança comercial produzia altos saldos pelas crescentes importações de produtos pela China.

Macaque in the trees
Timothy Geithner, do Fed, socorreu o Brasil, quando Meirelles dirigia o Banco Central (Foto: Win McNamee/AFP e Marcello Casal jr/Agência Brasil)

O país tinha, em 2006, US$ 30 bilhões em reservas, e saldo em conta correntes de US$ 13 bilhões. Em 2007, já houve um baque: mesmo com aumento das reservas, o saldo em conta corrente mingou para US$ 408 milhões e entrou em queda já em 2008 e 2009. Isso, conjugado ao encolhimento das linhas de crédito bancário, esvaziou as reservas do Brasil para só US$ 2,9 bilhões. A marolhinha estava virando maremoto.

Em relato, feito em 2009, a Octávio Costa, editor de Política do JORNAL DO BRASIL, à época trabalhando na Revista Isto é, o ex-presidente do Banco Central no governo Lula, Henrique Meirelles conta os bastidores das medidas que evitaram a quebra do sistema bancário brasileiro.

O país não tinha tantas operações especulativas soltas como nos EUA. Mas, a verdade é que bancos e empresas quebraram no Brasil (Unibanco se fundiu ao Itaú, Votorantim teve 49% comprados pelo BB, Aracruz e Votorantim Celulose se fundiram na Fibria, Sadia se uniu à Perdigão, etc) pela alta do dólar e falta de liquidez.

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Contas externas (US$ Bilhões) (Foto: JB)

O grande aliado de Meirelles foi Timothy Geithner, presidente do Federal Reserve de Nova Iorque, que fez várias intervenções no mercado, incluindo um swap de US$ 30 bilhões ao Brasil, para reforço das reservas.. Geitthener depois virou Secretário do Tesouro de Barack Obama. Eles se conheceram quando Meirelles dirigia o BankBoston dos EUA e Geithner era subsecretário do Tesouro.

Sexta-feira, 10 de outubro, Meirelles estava em Washington com o pessoal do Fed e concluiu que a restrição de crédito se agravou ainda mais devido à quebra do banco Lehman. No Brasil eram grandes as perdas das empresas com derivativos. Havia sintomas de pânico. Prevendo uma segunda-feira “muito perigosa”, Meirelles voltou sábado à noite, e, domingo, em São Paulo, convocou reunião da diretoria do BC que terminou à meia-noite. “Voltamos a nos reunir às sete da manhã da segunda-feira, 13. Os americanos tinham tomado algumas medidas e as bolsas na Ásia abriram melhor. Pensei: o momento de intervir é já. Tínhamos de atirar pesado e decidimos liberar R$ 100 bilhões de depósitos compulsórios para os grandes bancos comprarem carteiras de crédito dos pequenos. Neste dia, o mercado se acomodou completamente”, recorda.



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