Jornal do Brasil

Economia

Crise de emergentes se arrasta

Mesmo sem fato novo, escalada do dólar continua; Brasil tem uma das economias mais sólidas do grupo

Jornal do Brasil GABRIEL VASCONCELOS, gabriel.vasconcelos@jb.com.br

Um levantamento do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco (Depec) sobre os indicadores das economias emergentes atestou dificuldades para todo o grupo de países no mês de agosto, apesar da “ausência de um fato gerador específico”, como as tensões comerciais e geopolíticas e variação na taxas de juros dos Estados Unidos, que sustentavam a disparada do dólar até julho.

Segundo os economistas do segundo maior banco privado do país, a situação se deve à inércia da “sensibilidade dos investidores com estas economias” e ao rescaldo dos fatores de risco elencados em meses anteriores, como a guerra comercial com o Canadá e a China, cuja economia pode desacelerar arrastando parceiros com economias muito expostas ao país.

O cenário favorece inversamente os EUA, endereço certo da fuga de capitais, ao mesmo tempo que consolida a retomada da atividade doméstica. Com a economia crescendo acima de 3,0% nos últimos trimestres, os EUA devem continuar a normalizar a política monetária para conter a inflação, movimento que deve dar sobrevida à crise emergente.

No meio do furacão, está o Brasil, cuja moeda depreciou mais de 10% em apenas um mês. No acumulado do ano, a variação já é de 24,7%, a terceira maior depreciação de um conjunto de 32 países analisados. Segundo o Depec, esse movimento é um reflexo da tempestade que atinge os emergentes mais frágeis como Argentina e Turquia, que “afetou a classe de ativos como um todo” e ao cenário interno repleto de dúvidas em função das eleições, definidas como “incertezas quanto à política econômica que irá prevalecer no próximo ano”, o que, na prática, significa a manutenção ou não da agenda das reformas econômicas de austeridade tão ansiadas pelo mercado.

Olhando especificamente para o Brasil, o Bradesco ajustou a projeção do câmbio para R$/ US$ 3,90 ao final do ano e, justamente em função dessa depreciação continuada, também elevou a projeção de IPCA para 4,4% no ano. Segundo o banco, a alta dos preços livres (alimentação, serviços e bens industriais) ficará por volta de 3,2%, enquanto o aumento dos preços administrados (gasolina e energia elétrica residencial) será de 8,0%, pressionando o índice geral.

Embora no bolo, o país apresenta índices bem mais sólidos do que outros emergentes. No comparativo, o déficit em conta corrente brasileiro é de apenas 0,1%, situação melhor do que a de países como Argentina (-0,5%), Turquia (-6,7%) e África do Sul (-3,5%), além disso, a inflação projetada para 2018 não é das piores (4,4%) e bem inferior ao que se vê, por exemplo, no vizinho de fronteira, onde se espera uma alta de preços de 28,2% no ano. Além disso, o Brasil tem uma dos maiores reservas em fração do PIB (20%), só ficando atrás de Filipinas (24,1%) e Rússia (22,4%). Outro dado alentador é a fração da dívida pública em moeda estrangeira: o Brasil é o país que com o menor índice entre as maiores economias do grupo (5%), bem diferente de Argentina (67,6%) e Turquia (38,9%), por isso bem mais vulneráveis à variações do dólar.

Argentina e Turquia não teriam adotado as políticas econômicas necessárias para enfrentar a mudança do cenário de financiamento internacional e passam por uma “crise clássica de países emergentes”. Segundo o banco, a Turquia vinha estimulando a economia, tanto via aumento de gastos governamentais quanto mantendo a política monetária frouxa mesmo diante da aceleração da inflação. Esse conjunto de políticas resultou em um elevado déficit em conta corrente e na aceleração da inflação doméstica. Na Argentina, o problema se concentrou na morosidade dos ajustes fiscal e monetário realizados pelo governo, em um ambiente de inflação já elevada, déficit em conta corrente e alta necessidade de recursos externos para rolar sua dívida em moeda estrangeira no curto prazo.



Recomendadas para você