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Finança global está tão vulnerável quanto em 2008, diz ex-presidente do BCE

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Um débito excessivo tornou o sistema financeiro mundial tão vulnerável quanto há dez anos - advertiu o ex-presidente do Banco Central Europeu (BCE) Jean-Claude Trichet, em entrevista à AFP, olhando a crise em retrospecto.

"Existe agora uma concordância de que o nível de débito excessivo nas economias avançadas foi um fator-chave no gatilho da crise financeira global em 2007 e 2008", disse Trichet, que presidiu o BCE de 2003 a 2011.

"O crescimento no débito, especialmente débito privado, nos países avançados se desacelerou, mas essa desaceleração foi contrabalançada por uma aceleração do débito nos países emergentes", afirmou Trichet que, antes de presidir o BCE, esteve à frente do Banco da França.

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Em 2008, a quebra do Lehman Brothers deu início à crise que abalou o mundo (Foto: AFP PHOTO / AFP FILES / NICHOLAS ROBERTS)

"Isso torna todo o sistema financeiro global pelo menos tão vulnerável quanto em 2008, se não mais", insistiu.

Trichet foi o segundo presidente do BCE, instituição com pouco menos de uma década quando o banco americano Lehman Brothers entrou em colapso em setembro de 2008, uma data vista como o gatilho da crise global.

Trichet afirmou, porém, que o banco detectou grandes problemas bem antes.

"Eu testemunhei o começo real da crise financeira que estava para varrer o mundo na manhã de 9 de agosto de 2007, quando nos confrontamos com a interrupção completa do mercado monetário da zona do euro", lembrou.

Depois das primeiras falências no setor bancário americano no verão de 2007, a incipiente crise rapidamente fez as bolsas mundiais estremecerem também.

O contágio atingiu a Europa quando o banco alemão IKB divulgou um alerta de lucro, levando o governo alemão a estender para a instituição um socorro de mais de 3 bilhões de euros.

Em 9 de agosto, o gigante francês do setor BNP Paribas congelou três de seus fundos nos Estados Unidos especializados em hipotecas securitizadas, cujo valor despencou em mais de 400 milhões de euros em poucos dias.

O pânico se espalhou pelas instituições financeiras, levando o mercado, onde os bancos dão liquidez de curto prazo um ao outro, a secar de repente.

"Isso foi sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial", disse Trichet.

"Não havia nenhuma das transações usuais, nenhuma transação entre bancos, nenhuma taxa de juros de mercado", completou.

Trichet e o BCE responderam com pesada artilharia monetária.

"Decidi com meus colegas fornecer toda a liquidez que os bancos estavam pedindo, sem limite", contou.

No final, cerca de 50 bancos da eurozona buscaram um total de 95 bilhões de euros em liquidez - uma quantia excedida na história recente apenas pelos quase 110 bilhões que o BCE injetou depois dos ataques de 11 de Setembro nos Estados Unidos em 2001.

Trichet estava em sua casa de veraneio francesa naquele dia, longe da sede do BCE em Frankfurt, e "em constante contato eletrônico com o BCE e com os membros do conselho. Depois de duas horas e meia decidimos dar os 95 bilhões aos bancos".

O movimento foi um divisor de águas, porque "mostrou que o BCE era capaz de tomar decisões extremamente ousadas muito rapidamente".

Havia duas visões concorrentes sobre o que estava acontecendo, lembra Trichet.

"Havia os que pensavam que a crise dos 'subprime' era o prenúncio de algo maior e mais perigoso, e os que achavam que era uma simples correção de mercado, saudável e sem nenhuma importância sistêmica. Eu aderi à primeira visão", afirmou.

Nos meses seguintes, a situação financeira continuou a piorar, até que a quebra do Lehman Brothers deflagrou a crise propriamente dita.

O Lehman pode ter sido o menor banco de investimentos em Wall Street, mas "foi o detonador da pior crise financeira desde a Segunda Guerra Mundial", apontou Trichet.

Na época em que o Lehman começou a colapsar, Trichet disse que ele e seus colegas dos demais bancos centrais, incluindo o então presidente do Fed (o Banco Central americano), Ben Bernanke, "estavam muito cientes de que estávamos olhando para uma grande crise global completamente sistêmica".

"Dissemos que a falência do Lehman teria consequências catastróficas, mas eu me dei conta de que o governo americano não iria salvar o Lehman, se o setor privado falhasse em achar uma solução", completou.

"Eu entendi que o governo americano, na época, não tinha a margem de manobra política para intervir com dinheiro público. Então, me preparei para a catástrofe", acrescentou Trichet.

A quebra do Lehman Brothers e a mudança irreversível dos bancos centrais

O cataclismo desencadeado em 2008 pela falência do Lehman Brothers forçou os bancos centrais a expandirem os limites de seu mandato, uma mutação que muitos consideram irreversível.

A queda do banco americano marcou, com dez anos de recuo, o fim da era clássica das instituições guardiães da moeda, até então responsáveis pelo controle das taxas de juros de curto prazo e pela contenção das pressões inflacionárias.

Porque "subestimamos, nos mandatos dos bancos centrais, o papel crucial que eles deveriam desempenhar em caso de instabilidade financeira muito forte", ressalta Eric Dor, diretor de Estudos Econômicos do IESEG em Lille.

A partir do outono de 2008, o Banco Central Europeu (BCE), o Federal Reserve (Fed) dos Estados Unidos e o Banco do Japão (BoJ) se tornaram bombeiros, combatendo múltiplos incêndios com novos meios.

A primeira emergência foi reviver o mercado interbancário, paralisado. Em seguida, foi necessário apoiar o crescimento e reduzir o desemprego, contendo o risco de inadimplência dos Estados sobre suas dívidas, que quase estouraram a zona do euro.

O BCE, o Fed e o BoJ não apenas reduziram suas principais taxas de juros: eles também inundaram o sistema financeiro com liquidez, através de empréstimos gigantescos a bancos e programas de recompra de dívida pública e privada, dos quais apenas o Fed se libertou até o momento.

Esses remédios anticrise são agora parte da "caixa de ferramentas convencional" da política monetária, observou no início de maio Vitor Constancio, pouco antes de deixar a vice-presidência do BCE.

E parece ilusório esperar recuperá-los, já que os bancos centrais enfrentam um inchaço infinito da dívida dos Estados, empresas e indivíduos, ressalta o economista Patrick Artus, da Natixis.

Neste contexto, "já não podem normalizar sua política monetária por medo dos efeitos devastadores para as empresas 'zumbis', artificialmente mantidas vivas pelos juros baixos, e os países altamente endividados", prevê.

As instituções monetárias também terão que garantir que bancos e previdências privadas mantenham títulos do governo, a fim de manter o custo dos empréstimos soberanos o mais baixo possível.

Esse estado de "repressão financeira é parte da ação futura dos bancos centrais", assegura Frederik Ducrozet, economista da Pictet Wealth Management.

Apesar dos enormes recursos implantados, os bancos centrais também estão lutando para preencher sua meta de inflação de cerca de 2%, que reflete a saúde da economia.

"Nos fazem acreditar que isso acontece em decorrência de uma falta de demanda, mas, como Don Quixote ao atacar moinhos de vento, os bancos centrais estão lutando contra um inimigo imaginário", aponta Eric Dor.

Fora do campo de controle de bancos centrais, estão a concorrência global exacerbada em bens e serviços e a "uberização" da economia desacelerando os preços nos países desenvolvidos.

"A taxa de inflação provavelmente vai continuar a subir muito mais lentamente nos ciclos de recuperação pós-Lehman do que antes", atesta Holger Schmieding, economista do Berenberg.

O BCE confia, no entanto, que a inflação vai voltar ao controle de seu mandato, dizendo que os aumentos salariais na zona do euro acabarão por sustentar os preços.

Mas esse resultado será obtido apenas por meio de um estímulo monetário "muito mais importante do que antes para apoiar a demanda agregada", observa Schmieding.

A maioria dos economistas acredita que a próxima crise não virá do mundo bancário, que aparece "muito mais bem armado do que antes, incluindo de capital, para enfrentar um crash", assegura Artus.

Incapazes de antecipar a grande crise de 2008, os bancos centrais fortaleceram desde então seu papel de monitoramento, como o BCE, que atua com um supervisor de grandes bancos e exerce uma supervisão "macroprudencial" para detectar bolhas financeiras.



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