Pag. 20 - O trem-bala

Em matéria de transportes, o brasil é um dos países mais atrasados do mundo tirar o país de uma estagnação de mais de 60 anos sem investir na malha ferroviária vai custar caro o ato do pps de contestar a mp que garante o financiamento para o trem-bala, que deverá ligar campinas, são paulo e rio de janeiro, demonstra a preocupação de uma parcela da elite brasileira com a possibilidade de uma democratização dos transportes no país. independentemente do valor, o projeto do trem-bala marca o início de uma etapa histórica no nosso sistema de transportes.

É preciso lembrar que, em matéria de transportes, o brasil é um dos países mais atrasados do mundo. é inacreditável que um país de dimensões continentais, grande produtor de grãos e de minérios, dependa em mais de 80% do transporte rodoviário. na maioria dos países pós-industriais (e mesmo entre os bricks, como a rússia e a china) o transporte rodoviário é usado apenas para mercadorias leves, cujo transporte requer mais velocidade e distâncias mais curtas.

No brasil, não apenas a nossa gigantesca safra de grãos (que não pode crescer mais devido à deficiência de transporte) mas praticamente tudo o que se produz viaja de caminhão, muitas vezes a custos elevados, congestionando as rodovias.

A adoção do transporte de mercadorias baseado no caminhão e na condução de passageiros baseado no carro e no ônibus criou também aberrações, com as quais temos que conviver diariamente. no caso do transporte de passageiros, tais aberrações são bastante visíveis, e respondem não apenas pelo atraso econômico mas pela desigualdade social e por descaso ambiental. na medida em que apenas uma minoria da população tinha possibilidade de adquirir carros, criou-se um fosso intransponível entre o transporte público e o individual de passageiros. ao mesmo tempo, com a crescente expansão do número de carros e ônibus, tornam-se insuportáveis os danos ambientais de um sistema de transporte que utiliza combustíveis altamente nocivos ao meio ambiente.

Na mentalidade política brasileira, costuma-se acreditar que a educação é a única alternativa para sairmos do atraso e para diminuir as desigualdades sociais. mas pouco se considera que é pelo transporte que realmente se diferenciam as pessoas neste país.

A única solução viável para se resolver definitivamente o problema do transporte público custará caro, evidentemente. investimentos na malha ferroviária custam bem mais do que na malha rodoviária, mas duram dez vezes mais e propiciam um transporte mais seguro, mais confortável e mais eficiente. será preciso investir pesadamente na malha ferroviária urbana e em transporte alternativo. além do aumento da malha ferroviária interestadual de alta e média velocidade, é preciso expandir as linhas urbanas de metrô, criar linhas de trens leves de superfície (a exemplo dos strassenbahn alemães), ou trens suspensos, além dos teleféricos e das estações de bicicletas associadas a ciclovias.

O mais importante é criar um conceito de rede, capaz de interligar os pontos de conexão de forma inteligente, possibilitando reduzir o tempo de trajeto, a necessidade de muitas mudanças e os cus tos operacionais. claro, os custos de um tal investimento são grandes. mas é preciso pensar que o retorno se fará sentir de várias maneiras, ao longo de alguns anos.

No brasil, há uma obsessão pelo transporte rodoviário e aéreo, que não se justifica em termos econômicos e ambientais. claro que essas formas de transporte são necessárias, mas funcionam melhor quando estão associadas a uma malha ferroviária bem distribuída e eficiente, capaz de transportar pessoas de forma mais democrática e mercadorias de forma mais eficiente.

Evidentemente, tirar o brasil de uma estagnação de mais de 60 anos sem nenhum investimento na malha ferroviária não vai custar barato.

O túnel submarino que liga o canal da mancha através de uma linha de trem-bala foi uma das obras mais caras da história, mas nem por isso ingleses e franceses deixaram de fazê-lo. mesmo nos eua, onde a cultura automobilística é tão forte, novas linhas de trem de passageiros vão sendo projetadas e construídas como alternativa ao transporte automobilístico.

Será que vamos, mais uma vez, perder o bonde da história?.