Para além da casa-grande e da senzala

Mário Resende e Luiz Eduar do

PÓS-GRADUANDOS DA UNIVERSIDADE FED. DE SERGIPE

O pr ojeto do PT e seus aliados é o que leva a universidade pública para o interior do país, para os filhos de analfabetos

Há quatr o anos tr a balho em um campus da Uni v er si- dade F eder al de Ser gipe que f az parte do pr o g r ama de e x- pansão do go v erno feder al em Ita baiana, no ag r este ser gipano . Nos últimos oito anos f or am cria- dos cer ca 130 no v os campi de uni- v er sidades feder ais em todo o Br asil. Em quase sua totalidade, esses campi f or am implantados em cidades do interior do país. -Hoje o Campus de Ita baiana da Uni v er sidade F eder al de Ser gipe possui 100 pr ofessor es efeti v os. Esse cor po docente é f ormado , majori - tariamente, por pr ofessor es douto - r es. Os mestr es r epr esentam uma outr a parte significati v a dos pr ofes - sor es. P ouquíssimos são apenas g r a - duados. P ode-se di vidir esse g rupo de pr ofissionais entr e os mais jo v ens, r ecém-doutor es e mestr es, e douto - r es e mestr es que há mais de uma década tr a balha v am na iniciati v a pri v ada. Enquadr o-me entr e esses últimos. P or 16 anos tr a balhei em instituições pri v adas de ensino su - perior . O moti v o principal que me le v ou a participar dos cur sos públicos par a docente nas uni v er sidades fe - der ais f oi o f ato de as instituições pri v adas ter em começado um pr o - cesso sistemático de demissão de doutor es. Esse quadr o nega v a, e ain - da nega, o princípio básico de que se de v e estim ular a qualificaç ão pr o - fissional, no caso o doutor amento ... O campus de Ita baiana conta atualmente com apr o ximadamente 2.500 estudantes, e em agosto de 2010 f ormamos as primeir as turmas de seus cur sos de g r aduação . É im - portante que se diga, f ormamos as primeir as turmas. Muitos desses alunos passar am pelos pr o g r amas de iniciação científica, e xtensão e monitoria da UFS. Esper a-se, com isso , ir m uito além de um simples diploma de cur so superior . P ar a se ter uma ideia da importância desse feito , em 2000 pr aticamente 50% da população rur al do Estado de Ser gipe er am f ormados por anal - f a betos funcionais e m ais de 70% dos pais dos alunos que ing r essa - r am no campus de Ita baiana em 2006 er am analf a betos. T enho esper ança de que a pr e - sença da Uni v er sidade F eder al de Ser gipe em Ita baiana contribua, em médio e longo pr az o , par a au - mento significati v o do nív el de es - pecialização e capacitação da mão de obr a m as também, par a a di - min uição do númer o de homicídios, da violência contr a a m ulher e con - tr a a criança e par a o desen v ol - vimento e consolidação de uma cul - tur a democrática na r egião do ag r este ser gipano . De v o r essaltar que os in v estimen - tos públicos par a a implantação do campus de Ita baiana, cer ca de R$ 10 milhões, têm sido objeto de intensa e rigor osa fiscalização do próprio go - v erno feder al por meio da Contr o - ladoria Ger al da União (CGU) e de ór gãos e xternos, como o T ribunal de Contas da União (TCU). Como dir etor do campus, tenho um númer o de celular e um cartão cor por ati v o . O primeir o utiliz o par a contatos pr ofissionais e o segundo par a gastos emer gências essenciais par a a man utenção do campus. Mi - nha conta limite do celular é de R$ 100 e quando ultr apasso esse v alor pago a difer ença dir etamente na conta da União . O uso do cartão cor por ati v o é ainda mais r estriti v o . Os R$ 1.600 de que o campus dispõe (R$ 800 par a compr as e R$ 800 par a ser viços) seriam impossív eis de se - r em usados em r azão das r estrições legais se não ti v esse uma equipe f ormada por um contador e um ad - ministr ador tr a balhando em con - junto na gestão desses gastos. Esses detalhes são importantes par a ofer ecer um contr aponto em r elação à ideia gener alizada a r es - peito da corrupção do go v erno fe - der al. Nenhum ato de corrupção ou de desvio de dinheir o público é justificáv el, mas fico me per gun - tando o que seria de todos esses in v estimentos do go v erno feder al na educação superior nos últimos oito anos sem que esses mecanis - mos de contr ole, parte deles do pró - prio go v erno feder al, não e xistis - sem. Ou seja, esse mesmo go v erno que é acusado de corrupto f oi que intensificou a atuação de ór gãos de fiscalização . Com base em minha e xperiência pessoal, posso diz er que o Br asil é desigual por moti v os históricos e estrutur ais e de atribuir as causas da pobr eza, da violência e da f alta de per specti v as de futur o a moti v os pessoais e indi viduais. Nessa mesma linha, é com indig - nação que v ejo que parte da oposição à candidatur a de Dilma à Pr esidên - cia da República, em todas as r egiões do Br asil, inclusi v e em Ita baiana, tem como únicos fundamentos o pr econ - ceito e a desinf ormação . Quer o deixar clar o que não v otar em Serr a não é um crime ou o fim do m undo . É uma opção e um dir eito no conte xto da democr acia. O incômodo tem a v er com os ar gumentos, ou a f alta deles. P or e xemplo , as Ig r ejas têm feito campanha contr a a Dilma por ela ter , supostamente, se decla - r ado a f a v or da descriminalização do a borto . Ou seja, a candidata teria se posicionado , se r ealmente o fez, a f a v or de o a borto deixar de ser um crime. Isso não quer diz er que ela, pessoalmente, seja f a v oráv el ao a borto . Mesmo que f osse, o pr esi - dente da República, na democr acia, não tem como f az er v aler sua opinião por que a democr acia é o r eino das leis, e as leis dependem dos poder es instituídos. Descriminalizar o a borto não seria obr a apenas do Executi v o mas também do Legislati v o e do J u - diciário . Gostaria que o Serr a se pr o - n unciasse clar amente a esse r espei - to , principalmente por que ele se diz um especialista em saúde pública. Outr o pr econceito v eiculado nos bastidor es da campanha é que Dilma é homosse xual. P a r- ticularmente defendo que a orientação se xual é assunto de fórum íntimo e pessoal. Do mes- mo modo , compartilho com o prin- cípio segundo o qual a compe- tência e o caráter das pessoas independem do f ato de ser em m u - lher es ou homens, homosse xuais ou heter osse xuais. E o Serr a como se posiciona a r espeito de tema? T enho ouvido que Dilma é ban - dida. Cr eio que isso esteja associado ao f ato de Dilma ter sido fic hada e pr esa dur ante o r egime militar . Neste caso , e xistem várias possibilidades de inter pr etação . A primeir a, da qual discor do e a que me oponho , é o ponto de vista a partir do qual se f az essa afirmação . Isto é, se olharmos do ponto de vista do r egime militar , de seus go v ernos e das ideias e prin - cípios que defendia, de f ato , a Dilma pode ser vista com uma bandida. Afinal, ela se opôs a r egime militar e ao Estado ditatorial, e por isso ela f oi pr esa e tortur ada. Se v ocê é a f a v or do r egime militar e contr a a democr acia, então , tudo bem, a Dilma é uma bandida mesmo . Mas e xiste outr a possibilidade de pensar a prisão de Dilma. O r egime militar implantou um Estado ditatorial, sem liber dades e gar antias par a o cidadão . Contr a essa situação m uitas pessoas luta - r am, m uitas f or am pr esas e tortu - r adas, como a Dilma; outr as e xiladas, como o Serr a; e outr as ainda, mortas. Dessa per specti v a, a Dilma não é uma bandida. P ar a mim, nesse as - pecto , ela é um e xemplo , uma he - r oína. Pr eser v ou sob tortur a o nome de colegas de militância e luta contr a uma ditadur a que afeta v a não ape - nas a vida dela mas a de m uitos br asileir os. Gostaria de ouvir da boca do Serr a se ele, como e x-e xilado , tam - bém ac ha a Dilma uma bandida... Uma última confusão (par a não diz er mentir a) é que Dilma não go v ernará sem Lula. T ambém fico pensando sobr e isso . Acr edito sin - cer amente que a Dilma tem qua - lidades técnicas e políticas par a e xer cer a c hefia do Executi v o br a - sileir o . P or outr o lado , não se pode deixar de notar que a questão não é apenas o nome de uma pessoa. O f oco , per dido , de v e estar nos pr o - jetos políticos par a o Br asil. Em r esumo , eu diria que o PSDB, o DEM e seus aliados, r epr esentados por Serr a, têm um pr ojeto nacional elitista. Até acr edito que eles pen - sam nos pobr es. Mas eles pensam nos pobr es como pobr es, isto é, como uma par cela da sociedade que de v e ser ampar ada e assistida, mas par a contin uar em a ser pobr es par a que outr a parte da sociedade, bem me - nor , possa ter os benefícios da pr o - fusão dos bens e da sociedade de consumo . Isto é quase uma r eedição da v elha estrutur a social br asileir a baseada na separ ação entr e a ca - sa-g r ande e a senzala. É como um aluno meu disse certa v ez: “Pr o - fessor , como podem e xistir ricos, se não e xistir em pobr es?” Ele não es - ta v a sendo irônico . O pr ojeto do PT e seus aliados, r epr esentados por Dilma, é difer ente. É o pr ojeto que le v a uni v er sidade pública par a o interior do país, par a os filhos de analf a betos, que cria es - per ança e e xpectati v a de um m undo difer ente, menos desigual e, por isso , melhor . Nesse pr ojeto a pobr eza não é condição par a a riqueza, o analf a - betismo ou a baixa escolaridade não são condições par a o ensino superior público e de qualidade. Esse pr ojeto ofer ece condições par a r omper com a separ ação entr e a casa-g r ande e a senzala. É com esse Br asil que sonho e pelo qual luto diariamente mo - r ando e tr a balhando em Ser gipe, em sala de aula, r ealizando pesquisa e pr ojetos de e xtensão e dirigindo um campus da UFS no ag r este. P or tudo isso e por acr editar que o caminho a berto por Lula é o melhor , mais justo , mais democrático é que de - fendo o v oto em Dilma. que os in v estimentos públicos fe - der ais têm sido acompanhados pe - los necessários, ainda que f alív eis e insuficientes, mecanismos de con - tr ole e fiscalização . Relato essa e xperiência por que sei que m uitas pessoas não conhe - cem de perto a r ealidade que hoje eu vi v o . Muitos dos meus e x-alunos e colegas de tr a balho de São J osé do Rio Pr eto , Catanduv a, F ernandó - polis, Mir assol e P er eir a Barr eto no interior do estado São P aulo têm acesso à r ealidade do Nor deste br a - sileir o apenas por meio da impr en - sa ou em viagens de turismo . P or outr o lado , per ce bo um desejo e uma tendência de negar o f ato de